TRANSMISSÃO: Record

Em entrevistas e depoimentos reunidos para o Dia Internacional da Mulher, lideranças femininas destacaram conquistas nas carreiras e alertaram para obstáculos que ainda persistem em setores variados, do mercado de trabalho à política e à educação. As falas abordaram trajetórias pessoais, números sobre representatividade e preocupações com a violência contra meninas e mulheres.

Magda Chambriard relatou mudanças ocorridas desde que entrou na Petrobras, em 1980, aos 22 anos, quando mulheres eram impedidas de embarcar em plataformas marítimas, não tinham banheiros adequados e não podiam pernoitar em instalações de campo. Ela lembrou de uma operação na Bahia em que foi orientada a voltar para a cidade porque, segundo o chefe do distrito, “mulher não pode ficar aqui à noite”. Hoje, Chambriard é CEO da estatal desde 2024 e celebrou que a diretoria executiva da Petrobras tem, pela primeira vez, maioria feminina: cinco mulheres e quatro homens.

Promoção de outras mulheres

Para executivas como Cristina Palmaka, que foi presidente da SAP no Brasil e na América Latina e atualmente integra conselhos como os da Vivo, C&A e Arcos Dorados, a chegada ao topo trouxe a prioridade de abrir caminhos para outras mulheres. Durante sua gestão regional na SAP, três executivas passaram a integrar a liderança. Pesquisa da Nexus em parceria com a Todas Group, divulgada nesta semana, indica que mulheres são as que mais impulsionam a ascensão profissional de outras mulheres dentro das organizações.

Atletas e figuras públicas também comentaram representatividade. A ex-jogadora Fofão, campeã olímpica de vôlei e sócia da Beleza Negra, destacou que ver mulheres em posições de comando incentiva novas gerações, lembrando ainda avanços na igualdade de premiações e competições esportivas, embora permaneçam desafios.

Setores e limites do avanço

O crescimento da presença feminina em áreas como STEM e medicina foi ressaltado, mas com advertência sobre a queda porcentual à medida que se avança para níveis superiores de gestão. Na medicina, apesar de as mulheres serem maioria nas universidades e na força de trabalho, nem sempre alcançam cargos de liderança. A pneumologista Margareth Dalcolmo, pesquisadora da Fiocruz e integrante da Academia Nacional de Medicina, citou sua experiência como diretora de um grande hospital federal aos 33 anos, quando ainda havia surpresa ao encontrar uma mulher na função.

Tecnologia e violência digital

A atriz e escritora Bruna Lombardi, 73 anos, avaliou que a tecnologia amplia possibilidades e também expõe novas formas de violências. Luciana Temer, presidente do Instituto Liberta, apontou que as redes sociais facilitaram a circulação de informações e casos de violência; citou dados da rede Inhope que colocam o Brasil em quinto lugar mundial em denúncias de violência sexual online contra crianças e adolescentes.

Violência contra meninas e políticas públicas

Luciana Temer também ressaltou avanços legislativos, como a sanção da Lei Maria da Penha (2006) e a tipificação do feminicídio (2015), mas questionou por que o país ainda enfrenta números elevados de violência. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025 aponta que 61,4% dos estupros registrados foram cometidos contra menores de 14 anos (86% delas meninas) e que, entre vítimas de até 17 anos, 80% são meninas. Para as entrevistadas, políticas de prevenção e educação de gênero desde a infância são essenciais.

Imagem: Divulgação

Representação em cargos de poder e na política

Embora a presença feminina na liderança de empresas de médio porte no Brasil tenha crescido de 37% para 37,7% — acima da média global de 32,9% —, especialistas alertam para a lentidão da mudança: ao ritmo atual, a paridade em cargos de gestão só seria alcançada em 2051. Apenas 16,1% dos cargos de administração (conselhos e diretorias) são ocupados por mulheres, diz Valéria Café, diretora-geral do IBGC. A socióloga e filantropa Neca Setubal destacou avanços pontuais, como sua própria eleição como primeira mulher presidente do conselho da Fundação Padre Anchieta, mas afirmou que a representação ainda é insuficiente.

Na política, a sub-representação feminina permanece acentuada. Dados do portal TSE Mulheres mostram que, entre 2016 e 2022, mulheres foram em média 52% do eleitorado, mas representaram apenas 33% das candidaturas e 15% dos eleitos; nas eleições de 2022, ocuparam 17,7% das cadeiras da Câmara dos Deputados.

Em 2025, foi aprovada lei que estabelece cota mínima de 30% para mulheres nos conselhos de estatais, com vagas específicas para mulheres negras ou com deficiência, a ser implementada gradualmente em até três anos. Para a Dra. Margareth Dalcolmo, a questão envolve igualdade de oportunidades para competir.

As lideranças ouvidas ressaltaram que houve avanços concretos, mas que persistem desafios estruturais e sociais que exigem políticas públicas, educação e atenção contínua para consolidar as conquistas.

Com informações de Forbes