CARACAS — Desde a invasão dos Estados Unidos em janeiro, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro, a elite política venezuelana tem anunciado sinais de recuperação econômica, sustentados pela promessa do presidente Donald Trump de “desencadear a prosperidade” ao assumir o controle da indústria petrolífera do país. Apesar disso, grande parte da população continua enfrentando severas dificuldades cotidianas.
Centenas de presos políticos foram libertados após a saída de Maduro; muitos chegam às entrevistas magros e traumatizados por anos em prisões com condições degradantes. No entanto, centenas de detidos permanecem encarcerados, e vários libertados temem falar abertamente, por receio de represálias.
Entre os que não estão nem entre os libertados nem entre os líderes políticos, milhares de venezuelanos — professores, médicos, pedreiros e vendedores ambulantes — seguem lidando com a deterioração econômica. Na Universidade Central da Venezuela, em Caracas, quatro professores relataram como a queda econômica ao longo dos 13 anos de Maduro os empurrou para a pobreza. O professor Pedro García, 59 anos, disse que, nos últimos cinco anos, seu salário chegou a equivaler a US$ 4 por mês, levando-o a vender bens e reduzir suas atividades profissionais para sobreviver.
O economista Carlos Hermoso alertou que o reinvestimento dos lucros da venda de petróleo no país, prometido pelos Estados Unidos, poderia gerar uma ilusão de crescimento que não alcançaria a maioria dos venezuelanos. O governo norte-americano afirma ter começado a enviar “milhões de dólares” obtidos com a venda de petróleo venezuelano ao novo governo em Caracas e declarou que “garantirá que esses fundos sejam gastos de forma transparente e para o benefício do povo venezuelano”.
Analistas da Rystad Energy estimam que a reconstrução da indústria petrolífera pode custar mais de US$ 180 bilhões e levar mais de uma década, e mesmo assim a produção dificilmente retornaria aos níveis observados na década de 1990. Desde a deposição de Maduro, o bolívar vem se desvalorizando — pelo menos 36% desde janeiro — e o salário mínimo mensal ficou na faixa de 27 centavos de dólar.
Embora os Estados Unidos tenham intervindo na economia venezuelana, não tomaram medidas para reforçar as reservas cambiais do Banco Central, a exemplo do que foi feito recentemente na Argentina. Em meio à crise fiscal, a presidente Delcy Rodríguez anunciou que os trabalhadores receberiam bônus que, somados, totalizam US$ 240 por mês, valor distante das estimativas de gasto com alimentação: estudos independentes apontam que uma família de cinco pessoas precisa, em média, de US$ 610 mensais apenas para alimentação.
Pessimismo e serviços em colapso
Serviços básicos seguem em frangalhos — transporte, educação e saúde apresentam graves falhas — e quase 8 milhões de venezuelanos emigraram durante os 12 anos de Maduro no poder, em busca de melhores condições. Em bairros de Caracas, filas longas por transporte e combustíveis escassos são rotina; motoristas passam dias esperando para abastecer, e trens do metrô, antes referência na região, muitas vezes não circulam.
Imagem: Ap
Programas públicos anteriores para ampliar a frota de ônibus, como a importação de 7.000 veículos chineses em 2011 e a implantação de uma fábrica em 2015 com investimento de meio bilhão de dólares, sucumbiram diante da má gestão e corrupção, culminando no fechamento das instalações anos depois. Com a moeda em queda, reparos e manutenção se tornaram cada vez mais inacessíveis para proprietários e empresas.
Pesquisas da Universidade Católica Andrés Bello em 2024 apontam que cerca de três quartos da população não dispunham de renda suficiente para suprir necessidades básicas e que mais da metade vivia em situação de “pobreza multidimensional” — índice que inclui educação, moradia e emprego. Dez anos antes, esses índices eram aproximadamente 50% menores.
Histórias pessoais ilustram a crise: Ana Bracho, ex-funcionária pública, disse ter perdido acesso a programas de assistência após críticas ao governo local; Nélida Salazar vendeu bens para investir no sonho esportivo do filho, o jovem jogador de beisebol Santiago Jesús Díaz, enquanto a família tenta suprir necessidades básicas com pequenas vendas informais.
A transição política e econômica do país ainda está no início, e os desafios para reverter anos de declínio permanecem complexos e prolongados.
Com informações de Infomoney

Gudyê GR6 é editor-chefe e especialista em tendências musicais e entretenimento na GR6, a maior produtora de funk do Brasil. Com anos de experiência no mercado fonográfico, Gudyê lidera a equipe de conteúdo trazendo as últimas notícias sobre música, cultura urbana. Autor do Post: Gudyê GR6