Vendedores circulam diariamente pela entrada do escritório da Cimed em São Paulo, onde a identidade visual da linha Carmed divide espaço com lançamentos de higiene pessoal. A farmacêutica mudou seu foco estratégico, ampliando a atuação em bens de consumo e aceitando redução de margens para ganhar participação de mercado.

Segundo ranking da IQVIA de março de 2026, a Cimed liderou fabricantes de bens de consumo no Brasil, com R$ 479,6 milhões em vendas no mês, à frente da P&G (R$ 402,2 milhões) e da Nestlé (R$ 389,1 milhões). Em volume, a Cimed alcançou 29,8 milhões de unidades.

Quem e o que

O movimento é conduzido pelo CEO João Adibe Marques, que tem orientado a companhia de um modelo farmacêutico tradicional para um portfólio com peso maior em produtos de consumo. Hoje, 60% da receita da Cimed vem dessa categoria, ante 31% em 2021. A família Marques, fundadora da empresa em 1977, segue no controle: J.A. Marques Holding tem 56,85% e a KAR Veículos e Administração Patrimonial, controlada por Karla Marques Felmanas, detém 30,61%.

Como e por quê

A estratégia passou por lançamentos como vitaminas, repelentes e hidratante labial Carmed, repaginado e orientado a comunidades digitais infantis, que acumulou R$ 2 bilhões em faturamento desde o relançamento. A marca Super, de oral care e desodorantes, soma R$ 150 milhões e projeta R$ 600 milhões em 2026. A empresa também lançou a marca Urso no segmento de suplementação, com meta de 10% de participação no primeiro ano e R$ 1,2 bilhão de faturamento até 2029.

Impacto financeiro

O redirecionamento tem custo. Em 2025, a Cimed faturou R$ 3,07 bilhões, alta de 12,5%, mas o lucro líquido consolidado caiu 30%, para R$ 196,7 milhões. A margem Ebitda recuou para 16% (média histórica de 21%) e o fluxo de caixa operacional fechou negativo em R$ 55,5 milhões. Analistas observaram queda de ROIC de mais de 30% em 2017 para 13% em 2025, e redução da margem bruta de 59% para 45% no período.

Para financiar crescimento, em 2024 a Cimed negociou com o fundo soberano GIC, que se tornou acionista minoritário com 12,54% via aumento de capital de R$ 1 bilhão aprovado em março de 2025; R$ 424,5 milhões já foram integralizados. No segundo semestre de 2025, foram distribuídos R$ 427,2 milhões em dividendos e juros sobre capital próprio, e a companhia captou R$ 450 milhões em empréstimos e debêntures, incluindo emissão de R$ 300 milhões a CDI + 0,55% ao ano.

Imagem: Divulgação

Riscos e perspectivas

A deterioração financeira levou a Fitch Ratings a rebaixar a nota de crédito de AA+(bra) para AA(bra) em abril de 2025. A dívida bruta encerrou 2025 em R$ 1,8 bilhão, representando 3,7 vezes o Ebitda. Há ainda 28 processos sobre cálculo do ICMS-ST com exposição de R$ 590 milhões classificada como risco de perda “possível”, sem provisão no balanço.

A Cimed também expandiu parcerias: em setembro de 2025 formou joint venture com a Globo Ventures e o apresentador Luciano Huck para cuidar de marcas infantis; a nova empresa iniciou operações no vermelho, com prejuízo de R$ 15,3 milhões no primeiro trimestre. No portfólio farmacêutico, a companhia declarou estar na fila da Anvisa para registro de um análogo à semaglutida, cuja patente venceu.





Adibe afirma que os resultados do primeiro trimestre de 2026 mostram avanço da estratégia: R$ 1 bilhão em faturamento (alta de 20% na base anual) e Ebitda em alta de 26%. A meta da companhia é atingir R$ 4,8 bilhões em receita em 2026 e R$ 10 bilhões em 2030, mantendo a opção de abertura de capital sem data definida.

Com informações de Investnews