Primeiro elétrico da Ferrari provoca críticas e derruba ações em até 8%

Luce, o quatro-portas de €550 mil, divide especialistas e faz papéis recuarem forte — cotações marcavam queda de 6,4% às 13h37 (Brasília, UTC-3)

Em uma noite que deveria celebrar inovação, a estreia do primeiro carro totalmente elétrico da Ferrari virou alvo de reações duras e de uma forte correção nas bolsas. Críticas ao visual do modelo e comparações com sedãs elétricos de grande produção derrubaram o papel da montadora — que chegou a cair quase 8% nos minutos seguintes à apresentação.

Apresentação em Roma e reação imediata

A Ferrari escolheu um cenário imponente para revelar o Luce: a Vela di Calatrava, nos arredores de Roma. Mais de 200 jornalistas e centenas de clientes acompanharam a exibição, que também incluiu jantares exclusivos e a abertura de pedidos. Ainda assim, a estreia não foi o aplauso esperado.

Críticos e influenciadores nas redes sociais reagiram com surpresa ao design mais contido e às superfícies limpas do carro. Analistas de pesquisa compararam a nova silhueta a modelos elétricos mais convencionais, sinalizando que a aposta estética se afastou da assinatura esportiva tradicional da marca.

Por que o design dividiu opiniões

Desenvolvido com contribuição do coletivo LoveFrom, fundado por ex-designers da Apple, o Luce adota linhas menos angulares e um acabamento que privilegia a suavidade. Para parte do mercado, isso representa um rompimento com a identidade visual clássica da Ferrari.

Para outros, a mudança é deliberada: a marca procurou uma linguagem que se adapte ao formato quatro-portas e à proposta de conforto e uso diário, sem perder a promessa de exclusividade.

Sob o capô: números que impressionam

O Luce afirma capacidade técnica de alto desempenho. Com mais de 1.000 cavalos e aceleração de 0 a 100 km/h em cerca de 2,5 segundos, o modelo supera alguns dos irmãos a combustão em arrancada e velocidade máxima — acima de 310 km/h, segundo a montadora.

A arquitetura elétrica traz quatro motores, um por roda, bateria de alta voltagem projetada em Maranello e a inédita possibilidade de cinco lugares e bagageiro de 600 litros — configurações impensáveis nas plataformas tradicionais da Ferrari.

Impacto imediato nas ações e no valor de mercado

Após a apresentação, ações da Ferrari recuaram até 7,8% nas primeiras negociações em Milão e registravam queda de 6,4% às 13h37 (Brasília, UTC-3). A empresa mantém capitalização na casa dos US$ 57 bilhões.

Analistas ponderam que a reação instantânea mistura avaliação estética, riscos de aceitação do produto e dúvidas sobre a estratégia de eletrificação da companhia — que tentou amenizar expectativas no plano para 2030, reduzindo a parcela de veículos totalmente elétricos na linha.

Exclusividade em jogo

O preço de tabela — cerca de €550 mil (aprox. US$640 mil) — deixa claro que a Ferrari busca preservar caráter de alto luxo. A estratégia histórica da marca baseia-se em oferta restrita, listas de espera e forte controle de distribuição, métodos que sustentaram margens mesmo com volumes reduzidos.

Mas a entrada no universo elétrico testa se esses ingredientes mantêm poder de sedução quando o ronco do motor deixa de ser o protagonista emocional do produto.

O som, a emoção e o desafio da identidade

Reconhecendo o problema, a Ferrari investiu anos em desenvolvimento acústico e em milhares de quilômetros de testes para forjar uma assinatura sonora própria. Em vez de reproduzir artificialmente o rugido de motores a combustão, a marca optou por captar e processar os ruídos dos próprios propulsores elétricos.

Mesmo assim, a perda do motor tradicional segue sendo a principal interrogação entre colecionadores e entusiastas: é possível que um elétrico preserve o vínculo afetivo que define a marca?





Concorrência e cenário do luxo elétrico

Outros fabricantes de alto luxo têm adiado ou reduzido ambições elétricas diante de incerteza na demanda. A hesitação do mercado por produtos que substituam plenamente a experiência do motor térmico preocupa montadoras e investidores.

Para a Ferrari, o Luce é um experimento comercial e emocional: provar que a eletrificação pode coexistir com exclusividade, desempenho e valorização de longo prazo.

O veredito que falta

Enquanto analistas trocam opiniões e as cotações oscilam, a decisão final ficará com clientes e colecionadores. A Ferrari aposta que a combinação de desempenho, acabamento e personalização será suficiente para superar a primeira impressão negativa.

Nos próximos meses, pedidos, avaliações de mercado e o comportamento dos preços residuais dirão se o Luce será lembrado como uma mudança bem-sucedida ou como um tropeço caro — e se a montadora conseguirá conciliar tradição e futuro sem perder seu prestígio.