Cenário

TRANSMISSÃO: Record

O agronegócio brasileiro atravessa uma crise de ampla abrangência, em que choques externos e problemas estruturais pressionam simultaneamente preços, custos e a liquidez das empresas do setor, segundo diagnóstico de especialistas e dados institucionais. O problema começou a se intensificar após as turbulências geopolíticas desencadeadas pela invasão da Ucrânia, em 2022, e pelos ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã a partir do fim de fevereiro deste ano.

Quem e o que

Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura e professor emérito da Fundação Getulio Vargas (FGV), classifica a atual conjuntura como a mais abrangente em mais de seis décadas de sua experiência no setor. Leandro Gilio, pesquisador do Insper Agro Global, destaca que parte do problema tem origem estrutural, com elevada dependência de fertilizantes importados (quase 85% do consumo) e gargalos de logística: cerca de 70% do escoamento é feito por caminhões, em um momento de alta do diesel, além da falta de armazenagem adequada.

Dados econômicos e impactos

A inflação de custos vem reduzindo ou eliminando margens. O Instituto Mato-Grossense de Economia Agropecuária (Imea) registrou, em maio, alta de 64% nos custos operacionais por saca de soja geneticamente modificada entre os ciclos 2021/2022 e 2026/2027, e aumento de 59% para milho de alta tecnologia. Em contrapartida, o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), da Esalq/USP, aponta queda dos preços médios internos de soja e milho de 32% e 26%, respectivamente, entre junho de 2022 e junho deste ano.

O Itaú BBA projeta quase 8% de retração na margem dos produtores de soja no sudeste de Mato Grosso na passagem da safra colhida até este ano para a safra a colher até o ano que vem, acumulando uma queda de 28,5% desde o ciclo 2024/2025, quando as margens foram recordes. Para o milho, o banco prevê ganho de 18% na safra recém-iniciada, mas ainda com margens 26% menores que as de 2024/2025.

Crédito, endividamento e inadimplência

O estoque de crédito rural ampliou-se substancialmente: segundo o Banco Central, o volume de crédito rural saltou 47% entre dezembro de 2022 e maio deste ano, passando de R$ 474,9 bilhões para R$ 697 bilhões. Em relação ao fluxo, os empréstimos ao setor recuaram — de R$ 281 bilhões no acumulado de 11 meses até maio de 2025 para R$ 276 bilhões nos primeiros 11 meses da safra 2025/2026.

O período recente de bonança entre 2020 e 2022 estimulou financiamento privado por meio de CRAs, Fiagros e FIDCs, o que, na visão de executivos do mercado, pode ter contribuído para a situação atual. O número de pedidos de recuperação judicial no setor subiu: no ano passado houve aumento de 54%, totalizando 1.990 pedidos, e entre janeiro e março deste ano foram registrados 517 requerimentos, alta de 33% sobre o primeiro trimestre do ano anterior.

Júlio Moretti, CEO da NEOT, afirma que 85% das petições citam perdas por frustração de safra devido a eventos climáticos extremos; 75% mencionam queda de preços de soja e milho; 68% apontam descasamento entre custos de insumos e preços de grãos; e 60% referem juros altos. Produtores pessoa física e jurídica representam 59% dos pedidos, com o Centro-Oeste concentrando metade dos requerimentos no primeiro trimestre. Moretti estima que o volume financeiro sob estresse esteja em torno de R$ 38 bilhões, com cerca de 83% em operações com passivos superiores a R$ 30 milhões.

Agronegócio brasileiro enfrenta crise ampla com alta de custos, queda de preços e aumento do endividamento

Imagem: Divulgação

Reorganizações e respostas

Segmentos como revendas de insumos e indústrias têm buscado reestruturações e instrumentos financeiros mais sofisticados, sobretudo via FIDCs, para diluir riscos de crédito. Assessores jurídicos e consultores observam que, além de casos de insolvência, há também maior utilização da recuperação judicial como ferramenta de reorganização desde a entrada em vigor da Lei nº 14.112, em 2020.

No âmbito público, o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) indica atuação em frentes como acompanhamento de endividamento, aprimoramento de instrumentos de crédito rural e fortalecimento de mecanismos de gestão de risco (seguro rural e apoio à comercialização). O secretário de Política Agrícola do Mapa, Guilherme Campos, alerta para a necessidade de balancear apoio a devedores em dificuldade comprovada com segurança jurídica e responsabilidade fiscal, evitando medidas que possam gerar risco moral e encarecer o crédito futuro.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) pediu, entre outras medidas, um plano agrícola e pecuário plurianual e reforço orçamentário para o seguro rural. Antes do anúncio do novo Plano Safra, já havia sido divulgada a redução de R$ 29,8 bilhões nas linhas de custeio e comercialização para a safra 2026/2027 — corte de 7,20% — passando o total para R$ 384,9 bilhões.

Perspectivas

Entre os fatores apontados para a recuperação futura estão a adoção de tecnologias, como agricultura digital, que, segundo executivos do setor, pode reduzir desperdícios e otimizar o uso de insumos — a Basf estima que o mapeamento digital possa gerar economia de até 61% no uso desses recursos — além da tradicional capacidade de adaptação do produtor brasileiro. Ainda assim, analistas e executivos destacam que ajustes profundos e negociações de dívida em curso indicam uma etapa de reestruturação em toda a cadeia agroindustrial.

O quadro descrito reúne causas externas, como choques geopoliticos, e internas, como dependência de fertilizantes importados, gargalos logísticos, elevação do endividamento e do custo do crédito, além de eventos climáticos extremos.

Com informações de Valor.globo