O Federal Reserve (Fed) decidiu manter a taxa básica dos Estados Unidos entre 3,5% e 3,75% ao ano na sua última reunião, posição vigente desde dezembro. Apesar da manutenção, a comunicação do banco central indicou uma inclinação mais rígida, elevando a probabilidade de um aumento dos juros nos próximos meses, em meio à inflação persistente e ao impacto da guerra no Oriente Médio.

A votação pela permanência do juro registrou nove votos a favor e três contrários — uma dissidência não vista em uma reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) desde 2016. Em ata divulgada após o encontro, o Fed destacou a resiliência da economia americana e do mercado de trabalho, mas mencionou a incerteza global e pressões inflacionárias como riscos que podem tornar os custos internos mais altos.

Antes do encontro, instituições como o J.P. Morgan projetavam elevações de juros apenas em 2027. Após a reunião, o mercado revisou expectativas: o painel CME FedWatch, com dados atualizados nesta segunda-feira (3), indica que cerca de 65% dos investidores avaliam como provável um aumento de 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Fomc, marcada para 15 de setembro. O ambiente atual revela uma tendência hawkish, isto é, de maior rigor na política monetária para combater a inflação.

Em relatório recente, o Goldman Sachs relacionou a escalada do conflito no Irã e a volatilidade do petróleo à adoção de medidas monetárias mais duras por bancos centrais. Segundo o banco, nos últimos três meses 39% dos bancos centrais das economias desenvolvidas elevaram juros, sem cortes registrados; entre emergentes, 16% reduziram taxas e 13% as elevaram.

Analistas ouvidos pelo Bora Investir apontam que a guerra e o aumento de preços de energia são fatores relevantes para a possível mudança de rota do Fed, embora o principal ponto de pressão seja a inflação persistentemente acima da meta de 2% ao ano. Marcos Piellusch, professor da FIA Business School, relaciona a alta de energia gerada pelo conflito a choques estruturais citados pelo próprio Fed, junto a tarifas e investimentos em infraestrutura de inteligência artificial.

A economista Andressa Durão, do ASA, observa que a inflação de serviços permaneceu elevada, impedindo cortes de juros no início do ano e levando o Fed a se preparar para um aperto. Analistas também citam o aumento de tarifas determinado pelo presidente dos EUA, Donald Trump, que eleva custos de importação e pode levar empresas a repassar gastos aos consumidores ao longo do tempo.

A incógnita Kevin Warsh

Kevin Warsh, após duas reuniões no comando do Fed, ainda é visto com incerteza pelo mercado. Nomeado com a missão de trazer a inflação à meta, Warsh sinalizou mudanças na comunicação do banco, eliminando os “forward guidances” e sugerindo, segundo o New York Times, a possibilidade de reduzir o número de reuniões do Comitê, hoje em oito por ano. Especialistas alertam que menos encontros diminuiriam pontos formais para recalibrar expectativas, potencialmente aumentando a volatilidade entre decisões.

Fed mantém juros, mas sinalização mais dura eleva chances de alta já em setembro

Imagem: Pexels

Há dúvidas se Warsh conduzirá o Fed a uma postura mais hawkish ou dovish. Em declarações recentes, ele afirmou compromisso com a estabilidade de preços e rejeitou flexibilizar a meta de inflação, mas a coletiva pós-reunião foi interpretada pelo mercado como mais branda, o que aumentou parte das expectativas de inflação e dos juros longos, na avaliação de economistas ouvidas.

Possíveis impactos no Brasil

Uma trajetória de alta dos juros nos EUA tende a atrair recursos para os Treasuries, pressionar o dólar e influenciar a trajetória da Selic. Marcos Piellusch destaca que juros americanos mais elevados reduzem o apetite por ativos de risco em mercados emergentes, pressionando o real e podendo levar o Banco Central brasileiro a rever o ritmo de flexibilização monetária.

Se o Fed elevar a taxa na reunião de setembro, o movimento coincidiria com a véspera da eleição no Brasil, período em que variações do dólar e das taxas de juros influenciam o cenário político. Juros domésticos mais altos por mais tempo elevam o custo da dívida pública, o crédito e a atividade econômica, impacto cuja magnitude dependerá da intensidade e velocidade do aperto nos EUA, da situação fiscal do Brasil e da percepção de risco-país.

A notícia segue com essas informações e sem desdobramentos adicionais por ora.

Com informações de Borainvestir.b3