O anúncio de aumento dos limites do programa Minha Casa Minha Vida (MCMV) — que passou a incluir famílias com renda de até R$ 13 mil e imóveis de até R$ 600 mil na Faixa 4 — foi bem recebido pelo mercado imobiliário por ampliar o acesso ao crédito e potencialmente estimular lançamentos. Porém, a expectativa positiva convive com apreensão do setor em relação à possibilidade de utilizar recursos do FGTS para pagamento de dívidas.

As novas regras começaram a valer na última quinta-feira (22). Além de elevar o teto da Faixa 4, o governo ampliou também os limites das demais faixas, que agora contemplam famílias com renda de até R$ 9.300 e imóveis de até R$ 400 mil em parte das categorias. O programa uniformizou as taxas de juros em 0,99% ao mês para todas as faixas e estendeu o prazo de amortização dos financiamentos de 60 para 71 meses.

No contexto macroeconômico, o governo busca alternativas para aliviar o alto endividamento das famílias brasileiras — que atingiu 49,9% da renda, segundo o Relatório de Estatísticas Monetárias e de Crédito divulgado nesta terça (27). Uma das medidas em estudo pelo Ministério da Fazenda é permitir o uso de parte do saldo do FGTS para liquidar dívidas pessoais.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta segunda-feira, após encontro com dirigentes de bancos, que a segunda edição do programa de renegociação de dívidas, chamada Desenrola 2.0, deverá permitir o uso do FGTS para quitar débitos, sem detalhar valores. Reportagens prévias, incluindo coluna de Mônica Bergamo, informaram que o plano em análise seria autorizar o FGTS apenas quando o saldo fosse suficiente para saldar integralmente a dívida do trabalhador — uma alternativa menos ampla que proposta anterior de liberar até 20% do saldo para esse fim. A Fazenda não confirmou esses números.

O FGTS é um dos principais financiadores do setor imobiliário no país. Em 2025, o fundo respondeu por R$ 138 bilhões dos R$ 324 bilhões em novos financiamentos — cerca de 43% do total, segundo dados da Abecip. No estoque, o FGTS soma R$ 702 bilhões em uma carteira de R$ 6,23 trilhões, equivalendo a 27%, atrás apenas da poupança (SBPE), com 29%.

Para 2026, o orçamento do FGTS foi estimado em R$ 160,5 bilhões, dos quais R$ 144,5 bilhões, ou quase 90%, estão previstos para habitação. Deste montante, aproximadamente R$ 13 bilhões destinam-se a subsídios que reduzem o valor de entrada para famílias de menor renda.

O peso do fundo no financiamento habitacional explica a preocupação do mercado com qualquer mudança em sua destinação. Anderson Moraes, diretor comercial da BRZ Empreendimentos, disse que a elevação dos limites do MCMV é positiva, mas que juros elevados e o endividamento da classe média mantêm restrições ao acesso a imóveis de maior valor. Segundo ele, cerca de 28% dos compradores em empreendimentos da empresa utilizaram saldo do FGTS na aquisição.

Ampliação do Minha Casa Minha Vida aquece mercado imobiliário, mas proposta de usar FGTS para quitar dívidas gera preocupação

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Do ponto de vista institucional, Filipe Pontual, diretor executivo da Abecip, defende a análise técnica antes de qualquer alteração que permita uso do FGTS para quitação de dívidas, lembrando o papel duplo do fundo como reserva do trabalhador e como base do financiamento habitacional e de projetos de infraestrutura. A entidade vê com otimismo a revisão dos limites do MCMV, mas ressalta que a expansão sustentável do crédito depende também da redução estrutural das taxas de juros.

Um problema estrutural

Especialistas apontam que a dependência do FGTS decorre do cenário de juros elevados no Brasil, que dificulta o surgimento de fontes privadas alternativas de funding. Rodolfo Olivo, professor de Economia e Finanças da FIA, afirmou que taxas de juros menores seriam necessárias para que o setor conseguisse captar recursos por meio de instrumentos privados, como debêntures, sem recorrer tão intensamente ao FGTS.

Olivo destacou ainda limitações do próprio fundo, como baixa remuneração e impacto de mudanças no mercado de trabalho sobre a base de recolhimento, com aumento do trabalho fora da CLT. Segundo ele, medidas que vêm flexibilizando o uso do FGTS nos últimos anos — como saques de saldos inativos e modalidades de saque liberadas na pandemia — também contribuem para a percepção de risco entre construtoras.

Na prática, o setor imobiliário avalia que o curto prazo pode ser favorável com mais crédito e maior abrangência do programa habitacional, mas que a combinação entre a ampliação do MCMV e a possibilidade de novos usos do FGTS cria uma incerteza relevante sobre a capacidade de longo prazo do principal motor do financiamento imobiliário sustentar esse crescimento.

Com informações de Infomoney