A Anthropic, desenvolvedora da plataforma de inteligência artificial Claude, protocolou no início de junho o formulário S-1, documento prévio a um pedido formal de oferta pública inicial (IPO) nos Estados Unidos, indicando que a empresa se prepara para abrir o capital quando as condições de mercado forem favoráveis.

O envio do S-1 não equivale a um compromisso de lançamento imediato do IPO, mas, segundo especialistas consultados, sinaliza a intenção da companhia de aproveitar o atual interesse por tecnologias de inteligência artificial e os elevados múltiplos do setor.

Bruno Corano, economista da Corano Capital, afirma que a Anthropic busca acessar o mercado público enquanto o apetite por IA permanece alto. Corano aponta dois motivos principais: a necessidade substancial de capital para bancar investimentos em chips, data centers, energia e talentos; e a preocupação de que a janela de valorização possa não se repetir nos próximos anos.

Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, acrescenta que a empresa pretende se antecipar a uma possível saturação do mercado ou a um aumento do rigor regulatório.

Crescimento projetado e cautela dos analistas

Nos números apresentados, a Anthropic projetou receita próxima de US$ 5 bilhões no primeiro trimestre, com salto estimado para US$ 11 bilhões no segundo trimestre — crescimento superior a 100%. Renato Nobile, CEO e CIO da Buena Vista Capital, compara esse ritmo ao auge do Zoom na pandemia e aos IPOs do Google e do Facebook.

Apesar das projeções, especialistas recomendam cautela ao anualizar esse ritmo. Corano considera que o crescimento é real, mas provavelmente não sustentará a mesma velocidade, citando dúvidas sobre a recorrência da receita, retenção de clientes e dependência de parceiros como Amazon e Google. Zogbi vê parte do avanço como transitório, à medida que grandes empresas movem projetos de IA de experimentos para produção.

Milene Dellatore, do Grupo Mide, observa que muitas projeções se baseiam em receitas contratadas atualmente, o que significa que o mercado estaria pagando por expectativas de continuidade no crescimento.

Lucro, valuation e comparação com a OpenAI

Mesmo com a receita projetada de US$ 11 bilhões no segundo trimestre, a previsão de lucro é de US$ 559 milhões — valor considerado modesto diante da avaliação privada de US$ 965 bilhões atribuída à Anthropic na última rodada de investimentos. Esse patamar de lucro, de acordo com os analistas, é compatível com o modelo de negócios da IA generativa, que suporta custos variáveis elevados com processamento, energia e chips especializados.

Corano alerta que o mercado, atualmente, remunera uma rentabilidade que ainda precisa ser comprovada, já que não está claro qual será a margem estrutural após as despesas com infraestrutura, provedores de nuvem e pesquisa.

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No comparativo com a OpenAI, a Anthropic aparece com valuation maior — US$ 965 bilhões contra US$ 852 bilhões da concorrente. Nobile defende que o prêmio faz sentido porque a Anthropic priorizou o mercado corporativo, enquanto a OpenAI focou inicialmente em soluções voltadas ao varejo. Zogbi, porém, ressalta que tal prêmio pode não ser sustentável ao longo do tempo.

Riscos e impacto regulatório

Entre os riscos apontados estão o fato de a Anthropic ser uma Public Benefit Corporation (PBC), o que incorpora objetivos de impacto social além do retorno financeiro — elemento que pode gerar atrito com investidores focados em rentabilidade absoluta. Recentemente, a empresa sofreu a suspensão temporária, fora dos EUA, dos modelos avançados Fable 5 e Mythos 5 por determinações do governo americano relacionadas à segurança nacional; a suspensão foi revertida no fim do mês, mas evidenciou a exposição das empresas de IA a decisões regulatórias e geopolíticas.

Como investidores podem ter exposição

Especialistas afirmam que a participação no IPO deverá ser, em grande parte, restrita a investidores institucionais, tornando improvável o acesso direto de pessoas físicas. Como alternativas, investidores de varejo podem abrir conta em corretoras no exterior, adquirir BDRs que venham a ser listados na bolsa brasileira ou buscar exposição por meio de ETFs.

Diversos ETFs já possuem posições privadas na Anthropic: o KraneShares Artificial Intelligence & Technology ETF (AGIX) detém entre 2,7% e 2,9% em ações da companhia; o iShares AI Innovation & Tech Active, da BlackRock, possui participação privada da Anthropic e da OpenAI que soma 1% do patrimônio; há também fundos como o T. Rowe Price Technology ETF e ETFs da família Alger com alocações em empresas privadas de IA.

Momento de entrada

Quanto ao calendário de investimento, a recomendação dos especialistas para o investidor pessoa física é aguardar. Zogbi sugere esperar entre seis e 12 meses após o IPO para permitir a dissipação do entusiasmo inicial, o término do período de lock-up e o acesso aos primeiros balanços auditados. Corano destaca que o preço de entrada é determinante e que a melhor oportunidade costuma surgir após a reação inicial do mercado. Nobile recomenda que o investimento em empresas desse porte seja pensado para o longo prazo, no mínimo cinco anos.

O processo de abertura de capital da Anthropic e as decisões dos investidores deverão ser acompanhados de perto, à medida que surgirem balanços auditados e sinais mais claros sobre a sustentabilidade das receitas e margens.

Com informações de Borainvestir.b3