Um estudo publicado em fevereiro de 2026 na revista PLOS One revela que o perclorato, composto tóxico presente no solo de Marte, pode ser aproveitado por bactérias para produzir tijolos biológicos. A pesquisa, conduzida por cientistas do Instituto Indiano de Ciência (IISc), mostra que a micro-organismo Sporosarcina pasteurii, já testada em regolito lunar e marciano, utiliza esse contaminante para reforçar estruturas capazes de servir de base para futuras construções no Planeta Vermelho.

Processo de biocimentação

Em 2025, os pesquisadores do IISc demonstraram que a bactéria Sporosarcina pasteurii excreta ureia, que reage com cálcio para formar cristais de carbonato de cálcio. Quando misturado a goma guar — um adesivo natural extraído do feijão guar —, esse carbonato une partículas do regolito, dando origem a um material sólido semelhante a tijolos. A novidade do novo estudo foi adicionar perclorato ao simulante de solo marciano Mars Global Simulant 1 para avaliar como o composto afetaria a capacidade de produção desses “tijolos biológicos”.

Efeitos do perclorato sobre as bactérias

O perclorato, descoberto em 2008 pela sonda Phoenix da NASA, é reconhecido pela toxicidade e alta inflamabilidade. Nos experimentos, a presença do contaminante provocou estresse nas células de Sporosarcina pasteurii, reduzindo seu ritmo de crescimento e induzindo a formação de agrupamentos. Em resposta, a bactéria aumentou a excreção de proteínas e moléculas que geraram uma matriz extracelular (MEC). Surpreendentemente, essa rede de biopolímeros formou micropontes entre as células e os cristais de cloreto de cálcio, reforçando a resistência do material final.

A microscopia eletrônica confirmou que a MEC facilita a distribuição de nutrientes e a ligação das partículas de regolito, processo conhecido como biocimentação. “O perclorato, isolado, causa estresse, mas com os ingredientes certos ele fortalece os tijolos”, explica a microbiologista Swati Dubey, da Universidade da Flórida.

Imagem: Artmim/Shutterstock

Próximos passos em atmosfera simulada

Para avançar na viabilidade dessa tecnologia em Marte, o grupo pretende reproduzir as condições atmosféricas ricas em dióxido de carbono do Planeta Vermelho. “Marte é um ambiente alienígena. Entender como organismos da Terra se adaptam a ele é uma questão científica crucial”, afirma Aloke Kumar, coautor do trabalho. A meta é desenvolver métodos que permitam edificar habitats usando apenas recursos locais, reduzindo custos e riscos de levar materiais da Terra.

Com informações de Olhardigital