Os maiores bancos brasileiros aumentaram em 33% as provisões para perdas com crédito no primeiro trimestre, totalizando R$ 44,8 bilhões, em meio ao impacto do ciclo de juros altos, da guerra no Oriente Médio e do avanço nos preços do petróleo. O movimento ocorre enquanto o efeito retardado do pico da Selic em 15% pressiona o endividamento de empresas e famílias e dificulta cortes mais rápidos na taxa básica pelo Banco Central.

Quem e quanto: Banco do Brasil, Santander, Itaú Unibanco e Bradesco registraram, em conjunto, R$ 44,8 bilhões em despesas com provisões contra devedores duvidosos (PDD) entre janeiro e março. O montante foi apurado descontando recuperações de créditos baixados, metodologia conhecida como custo de crédito.

Por que aumentaram as provisões: Além do ambiente macroeconômico adverso, parte do reforço reflete a regulamentação CMN 4.966, que antecipou o reconhecimento de perdas esperadas e endureceu a classificação de risco, elevando provisões e indicadores de inadimplência.

Desempenho do Banco do Brasil: O Banco do Brasil concentrou a maior parcela do aumento, com R$ 18,9 bilhões de custo de crédito no trimestre, alta de 86% em 12 meses. A carteira de agronegócio foi a mais afetada, com provisões de R$ 7,4 bilhões e recuperação de apenas R$ 1,2 bilhão — bem abaixo da expectativa de R$ 2 bilhões a R$ 2,5 bilhões. A inadimplência rural do BB, medida por atrasos acima de 90 dias, subiu para 6,22% em março, ante 2,76% no mesmo mês do ano anterior. O banco também informou reforços nas provisões para cartões de crédito e registrou estresse crescente na carteira de pessoa física.

Privados e carteiras específicas: Entre os privados, o Santander apresentou a maior deterioração, com inadimplência de 3,3% no 1º trimestre, avanço de 0,6 ponto percentual em 12 meses. No Bradesco, a alta foi de 0,1 ponto; no Itaú, a taxa geral se manteve em 1,9%, mas houve aumento de atrasos entre micro, pequenas e médias empresas, em parte por término de programas de carência governamentais como o Fundo Garantidor de Investimentos (FGI). O presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho, estimou possível avanço de 0,1 a 0,2 ponto percentual adiante.

Casos pontuais em grandes empresas também pesaram nas carteiras corporativas. Embora os bancos não tenham divulgado nomes por sigilo bancário, o contexto inclui dificuldades de companhias que buscaram recuperação extrajudicial recentemente, como Grupo Pão de Açúcar e Raízen.

No Bradesco, o custo de crédito alcançou 3,5% e, segundo executivos, deve ficar próximo de 3,3% ao longo do ano. Analistas do Citi alertam que esse indicador é crucial para a recuperação do retorno sobre patrimônio (RoE) do banco, e que o custo do risco tende a permanecer pressionado, especialmente no varejo de massa.

Imagem: José Cruz/Agência Brasil/Arquivo

No Santander, o CEO Mario Leão afirmou não ver um problema estrutural, mas apontou atenção a três carteiras: pequenas empresas, agronegócio e alguns portfólios de cartões. Leão projetou melhora no agro em 2026 em relação a 2025 e está em transição para passar a função a Gilson Finkelsztain, atual CEO da B3.

Medidas públicas e impacto esperado: Dados do Banco Central mostraram que a inadimplência total do crédito no Brasil atingiu 4,3% em março, ante 3,3% um ano antes. Em resposta à pressão sobre os índices, o governo lançou nova edição do programa Desenrola, direcionado a trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos e dívidas de até R$ 15 mil, com atrasos entre 90 dias e dois anos; os descontos podem chegar a 90% com suporte do Fundo Garantidor de Operações (FGO). Bancos receberam a iniciativa de forma positiva, mas estimativas apontam impacto limitado para grandes instituições. O JPMorgan avaliou que as medidas não resolvem estruturalmente a alavancagem, mas podem ajudar na recuperação de créditos, e citou o Nubank (BDR: ROXO34) como provável principal beneficiário.

A notícia segue sem desfecho definitivo, à medida que bancos e reguladores acompanham a evolução da inadimplência e do custo do crédito nos próximos trimestres.

Com informações de Infomoney