Representantes do setor de infraestrutura digital dizem que o avanço da inteligência artificial abriu uma oportunidade para o Brasil disputar espaço na cadeia global de data centers. Com grandes mercados, como Estados Unidos e Europa, enfrentando prazos longos para conectar novos empreendimentos às redes elétricas, o País teria cerca de três anos para se preparar e atrair parcela da demanda mundial por processamento de dados.

O argumento se apoia no fato de que, em regiões como Frankfurt, Londres, Amsterdã, Paris e Dublin, a conexão de um novo data center à rede elétrica pode levar entre sete e 13 anos. Nos Estados Unidos, projetos de grande porte também chegam a enfrentar espera de até sete anos. Esse atraso na disponibilidade de energia tende a direcionar investimentos para locais com oferta energética e condições de implantação mais ágeis.

Para converter esse excedente em vantagem competitiva, especialistas ressaltam a necessidade de ações imediatas em áreas como regulação, tributação, transmissão de energia e segurança jurídica. A construção e entrada em operação de grandes data centers demandam anos, por isso projetos voltados para atender à demanda do fim desta década precisariam ser planejados já.

Além da geração, é preciso garantir capacidade de transmissão, novas subestações, transformadores e pontos de conexão capazes de suportar operações contínuas. Sem esses elementos, o excedente energético de uma região pode permanecer distante dos investimentos interessados em consumi-lo.

Impactos econômicos e competição regional

O Brasil já conta com 206 data centers em operação, o maior parque da América do Sul, e recebeu anúncios superiores a R$ 80 bilhões em novos projetos nos últimos dois anos. Ainda assim, a escala permanece aquém dos principais polos globais, o que demanda aceleração dos investimentos caso o País queira aproveitar o deslocamento de demanda atual.

Um estudo da FGV Projetos citado pelo setor indica que um data center com capacidade de 100 megawatts pode agregar R$ 1,5 bilhão ao Produto Interno Bruto brasileiro, considerando investimentos diretos, demanda por serviços e formação de profissionais. A consolidação do País como polo digital também reduziria dependência de capacidades processadoras instaladas no exterior.

Brasil tem cerca de três anos para transformar excedente de energia em vantagem no mercado de data centers

Imagem: Divulgação

Apesar das vantagens, o Brasil enfrenta incertezas regulatórias e tributárias. Equipamentos essenciais, como servidores e processadores, muitas vezes precisam ser importados, e o setor aguarda definição de incentivos fiscais que tornem os custos brasileiros mais competitivos. A demora pode deslocar projetos para países vizinhos, como Argentina e Paraguai.

Mais do que energia, a corrida será vencida por quem oferecer velocidade de conexão, estabilidade regulatória e previsibilidade para investimentos de longo prazo. A janela de três anos funciona como um alerta estratégico: há espaço agora para novos destinos, mas essa vantagem pode diminuir quando outros mercados ampliarem suas redes ou a concorrência se intensificar.

Com informações de Portalin