Pesquisa publicada na revista PNAS aponta que a expressão conhecida como “olhos de pidão” nos cães resultou de mudanças anatômicas ocorridas após a domesticação, favorecendo a comunicação visual com humanos. Segundo os autores, a alteração inclui o desenvolvimento de um músculo facial capaz de erguer a parte interna das sobrancelhas, o que intensifica sinais de vulnerabilidade e favorece respostas de cuidado por parte das pessoas.

Quem e o que

O estudo, divulgado pela PNAS (DOI: 10.1073/pnas.1820653116), identifica no cão doméstico um músculo chamado levator anguli oculi medialis — também referido como músculo levantador do ângulo do olho medial — mais desenvolvido do que em seus parentes selvagens, os lobos. Essa estrutura permite ao animal elevar obliquamente a região interna das sobrancelhas, aumentando a visibilidade da parte branca dos olhos e arredondando o olhar.

Como e por que surgiu

De acordo com os pesquisadores, a característica teria sido selecionada ao longo da convivência com humanos: cães capazes de produzir expressões que lembram traços infantis (características pedomórficas) teriam desencadeado empatia e comportamentos de proteção nos tutores. Esses animais, por receberem mais alimento e abrigo, teriam maior sucesso reprodutivo, tornando a expressão cada vez mais comum em gerações subsequentes.

O trabalho também aponta que essa modificação muscular é uma das mudanças mais rápidas observadas em mamíferos domesticados, ocorrendo em intervalo relativamente curto quando comparada a alterações ósseas. O ambiente doméstico funcionou como filtro de seleção artificial, privilegiando a comunicação afetiva em detrimento de traços ligados exclusivamente à força ou caça.

Diferenças em relação aos lobos e exceções

Os autores descrevem que, ao contrário dos cães domésticos, os lobos apresentam o músculo levator anguli oculi medialis ausente ou apenas vestigial, o que reflete diferenças de uso do olhar entre as duas linhagens: enquanto lobos usam o olhar para focar presas ou sinalizar dominância, cães direcionam o contato visual ao humano para obter cuidados.

Entre as raças estudadas, o Husky Siberiano mostrou uma musculatura facial relativamente mais rígida e semelhante à de lobos, sugerindo variação entre raças conforme a proximidade histórica com atividades sociais humanas.

Imagem: Divulgação

Os pesquisadores também destacam efeitos fisiológicos dessa interação: o contato visual que resulta do “olhar de pidão” estimula a liberação de oxitocina em ambos, fortalecendo o vínculo entre cão e tutor e contribuindo para maiores taxas de adoção e permanência em lares.

O estudo conclui que a expressão é fruto de uma coevolução entre cães e humanos, na qual mudanças físicas nos animais tornaram-se um meio eficiente de comunicação não verbal para obter recursos e cuidados.

Com informações de Olhardigital