Os Caminhos da Ibiapaba foram inaugurados como a primeira trilha do Brasil a conectar três biomas — Mata Atlântica, Caatinga e Cerrado — em um único percurso de 186 quilômetros. A rota, que atravessa a divisa entre Ceará e Piauí no entorno da Serra da Ibiapaba, foi oficialmente aberta há duas semanas em expedição acompanhada pelo jornal O Globo.

Transmissão: Globo

O que é e como funciona

A trilha foi estruturada em 13 trechos com diferentes níveis de dificuldade e pode ser percorrida completa ou em partes, incluindo trechos que permitem alternância entre caminhada e ciclismo. O trajeto completo tem duração ideal estimada em sete dias e exige pernoites ao longo do caminho, caracterizando-se como uma trilha de longo percurso.

Onde passa e o que protege

O roteiro cruza áreas protegidas de relevância regional, conectando o Parque Nacional de Sete Cidades, o Parque Nacional de Ubajara e a Área de Proteção Ambiental Serra da Ibiapaba. A travessia inclui mirantes, cachoeiras, grutas e pinturas rupestres, além de nascentes que formam piscinas naturais.

Patrimônio natural e histórico

A expedição inaugural, realizada na primeira semana de fevereiro, partiu do alto da serra e percorreu trilhas em mata e antigas estradas rurais até o Parque de Ubajara, famoso por suas cachoeiras e pela Gruta Ubajara. A gruta, com 1.200 metros de extensão em salões de rochas calcárias, tem 37 metros de profundidade e foi descoberta por portugueses em 1738; no século passado, recebeu cerimônias religiosas.

Ao longo da serra, mirantes de até 900 metros revelam a mata de cocais — com espécies como macaúbas, babaçus, buritis, açaís e carnaúbas — e áreas de agricultura familiar centenária agora em processo de regeneração. Em trechos ao nível do mar, a paisagem passa por engenhos de cachaça, produção artesanal de rapadura e campos de rosas, dando lugar depois à aridez da Caatinga, com cactos e solo avermelhado. A rota termina no Parque Nacional Sete Cidades, entre Piracuruca e Brasileira (PI), onde a vegetação se aproxima do Cerrado, com faveira de bolota, cajuí e sambaíba.

Imagem: Divulgação

No trecho de divisa com o Piauí, a comunidade Saco dos Polidórios, opção de pernoite, abriga cerca de 500 descendentes do fundador Polidório de Brito e mantém um observatório astronômico. A comunidade foi, por décadas, entreposto estratégico de comboieiros que faziam viagens de até três meses transportando couro, cera e outros produtos ao alto da serra, e trazendo de volta café, rapadura, cachaça e frutas.

Potencial econômico e de conservação

O projeto é apresentado como uma iniciativa que alia turismo e conservação. Ministérios do Meio Ambiente e do Turismo consideram trilhas de longo percurso promotoras de conservação ambiental, divulgação científica, lazer e geração de emprego e renda. O texto ressalta ainda uma comparação internacional: o Brasil é hoje o segundo maior emissor não europeu de turistas para a rota de Santiago de Compostela, mas tem menos trilhas sinalizadas do que Luxemburgo — país cujo território é inferior ao estado do Rio de Janeiro — sinalizando uma demanda reprimida por ecoturismo estruturado.

Com a abertura dos Caminhos da Ibiapaba, espera-se oferecer uma nova agenda de turismo sustentável no Nordeste, integrando conservação, patrimônio cultural e atividades econômicas locais.

Com informações de Portalin