Neobanks transformam crédito no Brasil — e trazem uma conta alta: a inadimplência

Expansão rápida incluiu milhões, mas atrasos crescem mais que a base de clientes

Pessoa usando celular - bancos digitaisEm poucos anos, bancos digitais levaram serviços financeiros a parcelas da população antes fora do radar das instituições tradicionais. Segundo análise de milhões de cadastros, cerca de 61 milhões de brasileiros passaram a usufruir desses produtos — mas a inclusão veio acompanhada por um salto expressivo nos atrasos de pagamento.

O que mudou em poucas contas

A oferta de crédito via celular acelerou a distribuição de cartões e empréstimos. Em 2025, quase metade dos cartões ativos dos consumidores estava atrelada exclusivamente a bancos digitais, e os empréstimos pessoais mostraram participação semelhante.

Parte desse avanço se explica pela chegada de consumidores que nunca tiveram relacionamento bancário antes: uma fração relevante dos cartões emitidos por plataformas digitais foi o primeiro cartão do titular. Essa dinâmica quebrou barreiras e explicou o crescimento exponencial do saldo de crédito nessas empresas.

Perfil do novo cliente

Os neobanks passaram a atender não só os jovens e tecnologicamente conectados, mas também pessoas com renda baixa e faixas etárias mais elevadas. Entre 2021 e 2025, a presença de clientes que ganham até um salário mínimo cresceu de forma marcante tanto nos cartões quanto nos empréstimos.

O público entre 36 e 70 anos também aumentou sua participação, sinalizando que o serviço pelo celular deixou de ser nicho e virou alternativa real para camadas amplas da população.

O custo do crescimento

O número que mais acendeu alertas foi o da inadimplência. Enquanto a base de clientes dos bancos digitais cresceu duas vezes ou mais em alguns anos, a quantidade de contas em atraso avançou numa velocidade bem maior — especialmente no cartão de crédito.

Em 2025, a taxa de atraso no cartão entre clientes digitais quase triplicou frente a 2021, e o índice em empréstimos pessoais também subiu de forma relevante. Em segmentos de menor renda, o salto foi ainda mais pronunciado.

Explicação e impacto

Especialistas veem duas forças em ação: a inclusão financeira ampliou o acesso imediato ao crédito, mas alcançou clientes com pouca experiência no uso de crédito e menor capacidade de absorber choques de renda. O resultado foi uma carteira com maior risco, ainda que a maioria dos novos clientes esteja pagando suas contas em dia.

Na prática, isso indica um dilema: ampliação do crédito é socialmente positiva e pode impulsionar consumo e atividade econômica, mas exige mecanismos de acompanhamento para evitar que o endividamento gere nova exclusão.

O que os números dizem

Dados centrais que emergem do levantamento:

Conheça bancos digitais ampliam crédito e inclusão, mas enfrentam alta da inadimplência

Imagem: Divulgação

– Cerca de 61 milhões de brasileiros passaram a usar serviços de bancos digitais;

– Aproximadamente 47% dos cartões ativos atendem apenas por bancos digitais;

– Mais de 50% dos clientes com empréstimo pessoal estão em neobanks;

– Quase 42% dos cartões emitidos por digitais foram o primeiro cartão do titular;

– A participação dos neobanks no crédito subiu de cerca de 12% para quase 32% entre 2021 e 2025;

– As taxas de inadimplência subiram de forma acentuada no mesmo período.

O próximo capítulo

A trajetória dos bancos digitais mostra que inclusão e risco andam lado a lado. O desafio à frente é transformar o acesso em relacionamento sustentável: manter a velocidade de expansão sem sacrificar a saúde das carteiras e sem reverter os ganhos sociais alcançados.

O mercado caminha para um cenário híbrido, em que bancos digitais dominam conveniência e crédito imediato, enquanto instituições tradicionais mantêm papel de referência em estabilidade e produtos de longo prazo. A disputa agora será em qualidade de concessão e capacidade de suporte ao novo cliente.