Os impactos econômicos da guerra no Irã, que já completa nove semanas, têm pressionado o mercado global de energia pela paralisação parcial do tráfego no Estreito de Ormuz, responsável por mais de 20% do fornecimento mundial. Nos Estados Unidos, o preço médio da gasolina supera US$ 4,45 por galão e chega a US$ 6 em algumas localidades, níveis não registrados desde 2022.

Em março, a inflação subjacente registrou sua maior alta em três anos, com avanço de 0,7%, impulsionada pela valorização do petróleo. Produtos alimentares básicos, como tomates, bananas e cebolas, já apresentam alta de preços desde o início do conflito. Especialistas alertam que o aumento dos custos de fertilizantes tende a manter a pressão sobre os preços dos alimentos, à medida que produtores enfrentam dificuldades para adquirir insumos químicos transportados pelo estreito.

Quem: o economista Eswar Prasad, professor sênior de política comercial e economia na Universidade Cornell, avaliou a situação e apontou fatores que atenuam o choque nos EUA.

O que e por quê: Prasad atribuiu a relativa resiliência da economia americana ao declínio de seu peso industrial ao longo das últimas décadas e à maior participação de serviços na atividade econômica. Segundo ele, essa transformação reduz a dependência de petróleo do país em comparação com meio século atrás, limitando a desorganização provocada pelo choque de oferta energética.

Posição do petróleo e efeito mitigador

Os Estados Unidos também se beneficiam por serem atualmente exportadores líquidos de petróleo: em 2023, houve exportações da ordem de 10,15 milhões de barris por dia e importações de cerca de 8,5 milhões, conforme dados governamentais. Para Prasad, essa combinação de menor intensidade industrial e posição líquida no mercado de energia tem amortecido o impacto imediato para a economia americana.

A retração da indústria e a mudança estrutural

O emprego industrial nos EUA alcançou pico em 1979, com 19,6 milhões de trabalhadores. Desde então houve retração: em junho de 2019 o emprego na indústria estava em 12,8 milhões, uma queda de 35% em relação ao auge. Mudanças regulatórias iniciadas na era do presidente Jimmy Carter, a desregulamentação do setor financeiro, o fim de controles sobre rotas aéreas e a adoção de computadores e tecnologias da informação contribuíram para a transição para uma economia menos centrada na manufatura.

Na tentativa de reverter parte dessa tendência, o governo do presidente Donald Trump aplicou tarifas visando desencorajar a deslocalização de empregos industriais, mas economistas atribuem parte das perdas de vagas — cerca de 108 mil postos no primeiro ano do segundo mandato do presidente Donald Trump — aos próprios tributos sobre importações. Especialistas também apontam que políticas migratórias mais rígidas podem ter agravado a escassez de mão de obra em setores produtivos.

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Comparações internacionais e medidas

Países com maior participação industrial na economia, como a Alemanha, sentiram pressões mais intensas: a indústria responde por cerca de 20% do valor bruto do país, acima da média de 15,9% da União Europeia, segundo a Eurostat. Em abril, o governo alemão aprovou um pacote de alívio de 1,6 bilhão de euros para reduzir impostos sobre diesel e gasolina. Projeções econômicas de primavera revisaram para baixo a expectativa de crescimento do PIB alemão em 2026, ajustando-a para 0,6%.

Produtividade e tecnologia

Além da composição setorial, Prasad destacou que os EUA registraram ganhos de produtividade desde o fim de 2019 superiores aos observados no Reino Unido, Canadá e na Europa, fator que tem sustentado o desempenho econômico. As causas desse avanço não estão inteiramente definidas — trabalho remoto e automação por inteligência artificial são hipóteses —, mas maior produtividade tende a permitir crescimento sem induzir inflação. Contudo, a guerra no Irã já afeta a cadeia de insumos: a escassez de hélio, usado na produção de semicondutores, pode limitar a expansão de tecnologias que dependam desses chips.

Prasad concluiu que, diante desses elementos estruturais, os Estados Unidos estão em melhor posição para resistir aos efeitos de um choque energético global em comparação com economias mais industrializadas.

Com informações de Infomoney