A alta da taxa básica de juros pressiona o custo de financiamentos para quem busca imóvel ou carro. Um levantamento encomendado pelo Bora Investir e elaborado por Fábio Sobreira, gestor e analista da Rocha Opções de Investimentos, mostra que o encarecimento das taxas de mercado aumentou em centenas de milhares de reais o valor total pago por um imóvel quando comparado ao ponto mais favorável de 2024. O estudo usou dados do Banco Central entre janeiro de 2023 e abril de 2026.

A escalada dos juros e seu efeito sobre imóveis

A Selic chegou a 15% ao ano em 2025 e, desde então, passou por quedas leves, alcançando 14,25% na decisão mais recente do Comitê de Política Monetária (Copom). Mesmo assim, as consequências dessa trajetória permanecem sentidas por quem pretende financiar a casa própria.

Nas simulações feitas com a Tabela Price para um imóvel de R$ 1 milhão—considerando entrada de 20% e financiamento de R$ 800 mil em 30 anos—o custo final variou de forma significativa entre os períodos analisados. Em julho de 2024, com taxa média de crédito imobiliário de mercado de 11,5% ao ano, a parcela mensal era de R$ 7.579,30 e o custo total do contrato chegava a R$ 2.728.547,19. Em abril de 2026, com a taxa de mercado em 14,3% ao ano, a prestação subiu para R$ 9.125,76 e o custo total passou a R$ 3.285.275,35. Na prática, o mesmo imóvel ficou R$ 556.728,16 mais caro em função do aumento das taxas no período.

Sobreira optou pela Tabela Price para uniformizar a comparação entre momentos distintos, já que esse método mantém parcelas fixas ao longo do prazo. O estudo ressalta ainda que, independentemente do sistema de amortização adotado, o efeito cumulativo dos juros ao longo de 30 anos eleva substancialmente o montante pago pelo imóvel.

Proteção parcial do programa habitacional

O programa Minha Casa Minha Vida, com taxas reguladas e subsidiadas, mitigou parte do impacto para famílias enquadradas nas faixas beneficiadas. Para um imóvel de R$ 500 mil, com financiamento de R$ 400 mil em 30 anos, a diferença entre o ponto mais baixo e o mais alto da série foi bem menor. Em julho de 2024, taxa regulada de 9,3% ao ano resultava em parcela de R$ 3.197,12 e custo total de R$ 1.150.961,52. Em abril de 2026, com taxa em 10,7% ao ano, a parcela passou para R$ 3.572,08 e o custo final alcançou R$ 1.285.950,20—um aumento de cerca de R$ 135 mil ao longo das três décadas.

O economista André Galhardo, da Análise Econômica, destaca que a existência de linhas subsidiadas amenizou o efeito no setor da construção, mas ressalta que taxas elevadas em geral restringem vendas e impactam a atividade. Ele também aponta que a concentração do sistema bancário amplifica como a política monetária se reflete nas taxas de crédito.

Galhardo chama ainda atenção para o reajuste de parcelas remanescentes por índices como a TR, que tende a subir quando o custo do crédito no mercado aumenta, elevando também os ajustes em contratos já firmados.

Financiamento de veículos com trajetória distinta

O comportamento do crédito automotivo se mostrou menos alinhado com a Selic. Em janeiro de 2023, com Selic em 13,75% ao ano, a taxa média de financiamento de veículos estava em 29,1% ao ano. Em abril de 2026, apesar da Selic mais alta (14,75%), a taxa automotiva recuou para 26,6% ao ano. Na simulação de um carro de R$ 100 mil financiado em 48 meses com entrada de 20%, a parcela passou de R$ 2.689,09 em jan/2023 para R$ 2.600,17 em abr/2026, uma redução de R$ 88,92.

Juros elevados encarecem financiamento de imóveis e afetam veículos, mostra estudo

Imagem: Divulgação

Rodolpho Sartori, economista da Austin Rating, observa que bancos não ajustam suas taxas para veículos com a mesma rapidez ou intensidade das mudanças na Selic e que o spread bancário elevado é determinante. Outro ponto ressaltado por Sartori é que transformações no próprio setor automotivo, como custos de tecnologia e escassez de componentes, tornaram veículos mais caros independentemente da taxa básica.

Cintia Falcão, da Acrefi, explica que o financiamento automotivo tem características que justificam taxas distintas: desvalorização rápida do bem, prazos mais curtos e maior risco de inadimplência em comparação ao crédito imobiliário.

Perspectiva e recomendações

Com a Selic em 14,25% e projeções de mercado indicando uma taxa terminal em torno de 14% ao final de 2026, especialistas avaliam que a melhora nas condições de crédito será lenta e limitada. Galhardo classifica o ciclo de cortes como modesto e prevê pouco impacto imediato nas taxas aplicadas a empréstimos e financiamentos.

Entre medidas citadas para reduzir o custo do financiamento estão a portabilidade de contratos por meio do Open Finance e a busca pela maior entrada possível. Cintia Falcão recomenda comparar CET e prazos, aumentar a entrada quando viável e optar por prazos menores para reduzir o total pago. Sartori reforça que diminuir o valor financiado tem efeito relevante por causa dos juros compostos e da duração dos contratos.

O estudo inclui simulações com a Tabela Price e as premissas detalhadas: veículo de R$ 100 mil financiado em 48 meses com 20% de entrada; imóvel de mercado de R$ 1 milhão financiado em 360 meses com 20% de entrada; imóvel Minha Casa Minha Vida de R$ 500 mil financiado em 360 meses com 20% de entrada. Todos os cálculos consideraram parcelas fixas.

Com informações de Borainvestir.b3