Luca de Meo, executivo italiano com longa carreira no setor automotivo, tem promovido uma reestruturação operacional na Kering desde que assumiu o comando do grupo de luxo. Em visitas a ateliês, lojas e fábricas, o dirigente de 58 anos tem questionado processos produtivos e comerciais na tentativa de tornar o conglomerado mais eficiente e menos dependente da Gucci.

No que chamou atenção, De Meo esteve em um ateliê convertido nos arredores de Milão onde uma ourives trabalhava manualmente filigranas delicadas para a marca Pomellato. Ao observar o procedimento, ele perguntou se a tarefa não poderia ser feita com laser; a artesã explicou tecnicamente por que a ferramenta não preservaria a sensação e a delicadeza do trabalho manual. De Meo relatou depois, em tom descontraído, que ela temeu pela própria vaga, mas entendeu a diferença entre automação e artesanato.

Uma visão industrial aplicada ao luxo

Seis meses após sua chegada à Kering, De Meo tem aplicado uma abordagem mais orientada por métricas e processos — tipicamente usada na indústria automotiva — a um setor acostumado a priorizar imagem e exclusividade. O objetivo é combinar maior rigor operacional com a manutenção das identidades e do prestígio das marcas do grupo.

Em seu primeiro dia, De Meo distribuiu um memorando intitulado “ReconKering”, que identificava problemas como custos elevados, capital imobilizado em lojas e aquisições, aumento da dívida e dependência excessiva da Gucci. No documento, estabeleceu metas: enxugar e reequilibrar o grupo em 18 meses, restaurar lucros e margens em 36 meses e retomar a liderança em 60 meses.

A Kering reúne 11 marcas e, segundo De Meo, deve explorar sinergias de bastidores — em produção, compras, qualidade e dados — sem sacrificar as imagens comerciais distintas de cada casa. Entre as ações já implementadas estão uma reorganização com equipes compartilhadas, contratação de um engenheiro automotivo como diretor industrial e a contratação de um ex-executivo da Amazon para liderar a área de clientes.

O novo CEO também recorreu a consultorias como BCG, AlixPartners e Bain para apoiar a reestruturação, embora a empresa afirme que a direção estratégica permanece interna. Para reduzir o endividamento, a Kering vendeu sua divisão de beleza para a L’Oréal por US$ 4,65 bilhões, entre outras medidas financeiras.

A urgência da mudança decorre de um cenário menos favorável ao luxo: depois do forte crescimento das últimas décadas e do boom pós-pandemia, as vendas desaceleraram em 2023, com desaceleração na China e consumidores mais cautelosos diante da inflação e juros mais altos. Na Kering, a Gucci encolheu de uma receita que chegou a US$ 12 bilhões para cerca de US$ 7 bilhões, impactada por alterações criativas e trocas na gestão.

Imagem: Divulgação

De Meo tem explorado modelos de produção mais alinhados à demanda, citando exemplos como a Inditex, e testado formatos comerciais que aproximam passarela e varejo. Em 27 de fevereiro, participou do desfile da Gucci em Milão, o primeiro com Demna como diretor criativo, e a marca adotou o modelo “see now, buy now”, disponibilizando parte da coleção imediatamente em canais selecionados.

As ações da Kering subiram cerca de 60% desde a chegada de De Meo, refletindo otimismo do mercado, embora analistas advirtam para riscos do segmento de luxo, em especial a chamada dinâmica em “K”, que separa o comportamento dos ultra-ricos do restante dos consumidores.





A agenda do novo presidente inclui racionalizar a rede de lojas — com a Gucci reduzindo cerca de 600 para aproximadamente 450 pontos — integrar fornecedores e insumos entre marcas, fortalecer nomes como Saint Laurent, Bottega Veneta, Brioni e joalherias como Boucheron e Pomellato, e evitar concorrência entre casas do mesmo grupo.

Natural de Milão (nascido em 1967) e com mais de três décadas no setor automotivo, De Meo busca transformar a abordagem do grupo, adotando maior disciplina operacional sem apagar o prestígio das marcas. As mudanças em curso marcam o início de um processo que, segundo ele, está apenas no começo.

Com informações de Investnews