Mulheres de áreas rurais na Índia têm papel fundamental na moderação de material violento, abusivo e pornográfico utilizado para treinar sistemas de inteligência artificial. De acordo com reportagem do The Guardian, essas profissionais, que atuam remotamente de vilarejos em estados como Jharkhand e Uttar Pradesh, revisam diariamente imagens, vídeos e textos sinalizados por softwares automáticos, classificando-os conforme regras de plataformas digitais.

Cada moderadora pode analisar centenas de itens sensíveis em um único dia de trabalho. O objetivo dessa etapa é alimentar algoritmos de aprendizado de máquina com dados rotulados por humanos, permitindo que as IAs identifiquem violações relacionadas a violência, exploração e abuso de forma autônoma no futuro.

Efeitos psicológicos da exposição contínua

Pesquisas citadas pelo jornal apontam que a exposição repetida a conteúdo extremo gera impactos duradouros na saúde mental dessas mulheres. Estudos publicados em dezembro identificaram o estresse traumático como o principal risco, acompanhado por entorpecimento emocional, ansiedade, pensamentos intrusivos, alterações de comportamento e distúrbios do sono. Mesmo em locais onde há suporte institucional, níveis significativos de trauma secundário permanecem presentes, frequentemente se estendendo além do prazo de vínculo profissional.

Dados do setor e condições de trabalho

Segundo dados da associação indiana de tecnologia Nasscom, cerca de 70 mil pessoas atuavam com anotação de dados no país em 2021, movimentando um mercado de aproximadamente US$ 250 milhões. Desse total, 60% da receita vinha dos Estados Unidos, enquanto o mercado interno respondia por apenas 10% dos negócios.

A reportagem também revela que muitas vagas são anunciadas de forma genérica, sem detalhar a natureza do conteúdo a ser moderado. Em alguns casos, as trabalhadoras descobrem apenas após a contratação que terão de analisar material sexual explícito ou casos de abuso infantil. A ausência de reconhecimento legal dos danos psicológicos nas leis trabalhistas indianas dificulta o acesso a compensações formais.

Imagem: Divulgação

Entre as empresas consultadas pelo The Guardian, apenas duas afirmaram oferecer apoio psicológico estruturado. As demais declararam não considerar necessário esse tipo de cuidado. Além disso, rígidas cláusulas de confidencialidade impedem as moderadoras de compartilhar suas experiências, nem mesmo com familiares. O receio de perder o emprego e a escassez de alternativas profissionais levam muitas a manter o trabalho, mesmo sob forte desgaste mental.

Essa atividade, essencial para o avanço de plataformas digitais, segue envolta em desafios tanto para a saúde das moderadoras quanto para a regulamentação da profissão na Índia.

Com informações de Olhardigital