O neurocientista brasileiro Kauê Costa, professor do Departamento de Psicologia da University of Alabama at Birmingham, tem investigado como a dopamina contribui para a transformação de experiências em aprendizado. Seu trabalho propõe uma visão mais ampla do papel desse neurotransmissor, tradicionalmente associado à recompensa e ao prazer.

Quem é e por que importa

Costa é formado em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pará (UFPA), onde, ainda jovem, recebeu um prêmio por um projeto sobre migrações de aves em Belém que o levou a uma estação científica na floresta de Caxiuanã. Fez mestrado em Filosofia na Universidade de São Paulo (USP) e doutorado em Neurociência pela Universidade de Frankfurt, na Alemanha. Em junho de 2026, a revista Scientific American incluiu-o na lista dos 25 jovens cientistas em ascensão daquele ano, em reconhecimento às suas pesquisas sobre os mecanismos de aprendizagem cerebral.

O que mostram as pesquisas

No laboratório que coordena, Costa estuda como o cérebro organiza estímulos — luzes, sons e imagens — em mapas cognitivos que orientam comportamentos como busca por alimento, água e parceiros. Seus resultados indicam que a dopamina não age apenas em respostas a recompensas ou punições: também é liberada diante de eventos inesperados e neutros, sem valor óbvio de ganho ou perda. Esse padrão sugere que o sistema cerebral se atualiza quando a realidade contraria previsões, forçando ajustes nos mapas internos.

Debate atual e perguntas em aberto

Há uma corrida na neurociência para entender se neurônios dopaminérgicos sinalizam simplesmente estímulos chamativos ou especificamente violações de previsão. Outra questão que Costa investiga é se a dopamina transmite apenas um sinal simples ou se carrega informação detalhada sobre o conteúdo do aprendizado. No laboratório, os pesquisadores também analisam como a dopamina interage com outros neurotransmissores — como acetilcolina, serotonina e adenosina — para verificar se diferentes tipos de aprendizagem dependem de combinações desses sinais químicos.

Implicações clínicas e aplicações

Embora se trate de ciência básica, o trabalho pode influenciar tratamentos para doenças neurológicas e psiquiátricas. Costa aponta que alterações nos processos de aprendizagem estão presentes em grande parte dessas condições. Como exemplo, ele cita a doença de Parkinson, caracterizada pela perda de neurônios que produzem dopamina: a reposição do neurotransmissor é tratamento comum, mas pode elevar o risco de comportamentos compulsivos. Compreender os mecanismos subjacentes pode permitir intervenções mais direcionadas para corrigir aprendizagens patológicas, incluindo vícios.

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Contexto social e tecnológico

Costa também relaciona seus achados à chamada economia da atenção: algoritmos de redes sociais frequentemente exploram princípios de reforço intermitente — recompensas imprevisíveis que aumentam a repetição de um comportamento — contribuindo para uso prolongado ou compulsivo das plataformas. Além disso, ele observa que teorias clássicas do aprendizado inspiraram os primeiros modelos de inteligência artificial e que avanços na compreensão da dopamina podem oferecer pistas úteis para construir modelos computacionais mais próximos de processos biológicos.

As pesquisas de Costa ampliam a compreensão de como o cérebro transforma experiências em conhecimento, mostrando que aprender não depende apenas de recompensa imediata, mas também de eventos inesperados que forçam atualização dos mapas cognitivos.

Com informações de Fastcompanybrasil