A guerra no Irã está reconfigurando a dinâmica do mercado de petróleo, com impactos que incluem a fragmentação da Opep, interrupções no Golfo Pérsico e o fortalecimento dos Estados Unidos por conta da produção doméstica recorde de combustíveis fósseis.

Na terça-feira, os Emirados Árabes Unidos anunciaram que deixariam a Opep comandada pela Arábia Saudita, rompendo com o grupo criado para coordenar oferta e reduzir a volatilidade dos preços. A decisão dos Emirados representa um enfraquecimento de mecanismos que vinham desde a década de 1970 para estabilizar o setor, como o próprio papel da Opep, estoques estratégicos e mercados futuros.

Analistas afirmam que o conflito no Irã vem deslocando um mercado orientado pela eficiência econômica para outro mais marcado por decisões políticas e riscos geopolíticos. O livre trânsito de petróleo pelos oceanos diminui diante de bloqueios no Golfo Pérsico e ações que restringem o tráfego de petroleiros, enquanto países passam a priorizar segurança de suprimentos e a produção interna.

“Isso significa uma situação de cada um por si”, afirmou Gregory Brew, analista sênior sobre o Irã na Eurasia Group. A administração do presidente Donald Trump, segundo reportagem do Wall Street Journal, optou por aumentar a pressão sobre Teerã, dificultando o transporte marítimo de petróleo para e a partir de portos iranianos.

Exxon e Chevron

O governo americano tem incentivado parceiros a comprar petróleo e gás dos Estados Unidos, e executivos do setor foram instados a ampliar planos de produção, com destaque para empresas como Exxon Mobil e Chevron. Apesar disso, especialistas de mercado e investidores de Wall Street não esperam um aumento substancial da produção americana nos próximos meses.

Com a saída dos Emirados do sistema rígido de cotas da Opep, o país pode optar por elevar o volume exportado. O Ministério de Energia e Infraestrutura dos Emirados declarou que aumentará a produção de forma responsável e gradual, alinhada à demanda e às condições de mercado.

Analistas da Rystad Energy afirmaram que a retirada dos Emirados eliminou “um dos poucos amortecedores que restavam” para o setor. Ole Hansen, chefe de estratégia de commodities do Saxo Bank, alertou que, se outros produtores priorizarem participação de mercado em vez de disciplina de cotas, a capacidade da Opep de coordenar ajustes de oferta ficará mais fragilizada.

Brasil e outros produtores

Enquanto isso, a Venezuela começou a aumentar sua produção depois de anos de queda, em consequência da remoção do presidente Nicolás Maduro pelos EUA neste ano, segundo a reportagem. Países fora da Opep, como Guiana, Brasil e Canadá, também planejam elevar a extração para estimular o crescimento econômico.

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Compradores na Europa e na Ásia já enfrentam custos maiores ao importar petróleo, derivados e gás natural liquefeito de locais distantes dos pontos de conflito. Jason Bordoff, diretor do Centro de Política Energética Global da Universidade Columbia, destacou que a produção doméstica pode trazer benefícios de segurança, mas implicaria custos que os formuladores de políticas terão de avaliar.

Para conter a alta dos preços, países ocidentais estão adotando retiradas recordes de seus estoques, incluindo uma liberação projetada de 172 milhões de barris da Reserva Estratégica dos EUA, que levaria o nível dessa reserva ao ponto mais baixo em décadas. Postagens do presidente Trump sobre prazos do conflito e negociações também contribuíram para atenuar picos nos mercados financeiros.





Os contratos futuros de referência global passaram de US$ 111 por barril na segunda-feira, o maior patamar desde o anúncio de cessar-fogo entre Washington e Teerã no início de abril. Alguns analistas acreditam que os preços podem retornar a níveis observados após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022.

Tim Hodgson, ministro de energia e recursos naturais do Canadá, disse que os eventos recentes deixam claro que o sistema baseado no livre fluxo de energia foi rompido e que o mundo entrou em um período de elevada volatilidade.

O futuro do mercado dependerá da duração dos bloqueios, das decisões de produtores independentes e da capacidade de países consumidores reduzirem dependência de combustíveis do Oriente Médio, pela via da eficiência ou do aumento da oferta doméstica.

Com informações de Investnews