Produtores agrícolas dos Estados Unidos intensificam pedidos para a revogação de tarifas sobre fertilizantes fosfatados enquanto a oferta e os custos do insumo sofrem dupla pressão: medidas tarifárias em vigor desde 2021 e a escalada de tensões com o Irã, que ameaça a navegação pelo Estreito de Ormuz.

A disputa começou em abril de 2021, quando o Departamento de Comércio dos EUA aplicou direitos compensatórios sobre importações de fertilizantes fosfatados provenientes do Marrocos e da Rússia, após petição da Mosaic Company. A alíquota inicial sobre a OCP (Office Chérifienne des Phosphates), estatal marroquina e maior exportadora mundial de fosfato, foi fixada em 19,97%. Produtores russos receberam tarifas de 9,19% (PhosAgro) e 47,05% (EuroChem), conforme publicação no Federal Register de 7 de abril de 2021.

O efeito prático, segundo órgãos e estudos citados por produtores, foi reduzir o acesso a volumes significativos de fosfato. A ITC (Comissão de Comércio Internacional dos EUA) reconhece que o Marrocos detém cerca de 70% das reservas mundiais de rocha fosfática. Antes das tarifas, produtores americanos obtinham cerca de 15% do fosfato consumido internamente a partir do Marrocos, conforme carta ao presidente Biden assinada em julho de 2022 pelo senador Roger Marshall e pelo deputado Kevin Mann.

Um estudo do Agriculture and Food Policy Center da Universidade Texas A&M, publicado em janeiro de 2026, calculou que a tarifa inicial de 19,97% elevou o preço do fosfato diamônico (DAP) em 28,6% durante o período em que a alíquota esteve nessa faixa, e que os produtores de grandes culturas gastaram US$ 6,9 bilhões adicionais entre 2021 e 2025 — o equivalente a R$ 35,6 bilhões pela cotação atual. Desde 2024, a OCP opera com tarifa superior a 16%.

Risco logístico pelo Estreito de Ormuz

A escalada de tensão entre Estados Unidos e Irã trouxe um componente adicional de risco. O Irã ameaçou fechar o Estreito de Ormuz em caso de agravamento do conflito, canal que responde por cerca de um quarto do comércio mundial de petróleo e por volumes relevantes de insumos, entre eles enxofre necessário para a produção de DAP e MAP.

O preço do enxofre triplicou em 2025, elevando custos globais de produção de fosfatos. Com rotas marítimas potencialmente comprometidas, parte dos insumos pode não chegar a tempo para o plantio de primavera nos EUA (março a maio). Entre 20% e 25% dos produtores americanos ainda não adquiriram todos os fertilizantes necessários para a safra de 2026.

Internamente, a produção de fosfatos nos EUA é concentrada. Existem seis fabricantes de fertilizantes fosfatados no país, mas a maior parcela do volume nacional vem de Nutrien e Mosaic. Em janeiro de 2026, o secretário adjunto de Agricultura, Stephen Vaden, acusou as duas empresas de operar um “duopólio” e o Departamento de Justiça abriu investigação para apurar possíveis conluios na formação de preços.

Imagem: GettyimagesProdutores dos EUA estão às vésperas do plantio da safra

A Nutrien, que produz cerca de 20% do fosfato americano por meio de duas unidades na Carolina do Norte e na Flórida, declarou apoio à remoção das tarifas, segundo declaração veiculada pela Association of Wheat Growers. Em resposta procedural, a ITC instituiu, no início de março, a revisão obrigatória de cinco anos das tarifas compensatórias sobre fosfatos do Marrocos e da Rússia, conforme publicação no Federal Register.

No dia 20 de março, cerca de 50 associações estaduais de produtores e oito entidades nacionais — entre elas a Associação Nacional de Produtores de Milho, a Associação Americana de Soja e a National Association of Wheat Growers (NAWG) — enviaram carta ao secretário de Comércio Howard Lutnick pedindo a revogação das tarifas.

Em comunicado divulgado em 1º de abril, a NAWG solicitou formalmente à ITC a revogação das tarifas. O CEO da entidade, Sam Kieffer, afirmou que “as tarifas atuais impuseram uma carga financeira insustentável aos produtores”. Segundo análise da NAWG, produtores de trigo americanos acumularam quase US$ 1 bilhão em custos adicionais entre 2021 e 2025; os estados mais afetados foram Dakota do Norte (US$ 202 milhões), Kansas (US$ 141 milhões) e Montana (US$ 120 milhões).

O prazo para submissão de comentários ao processo de revisão da ITC encerra-se em 8 de maio, conforme o Federal Register.

Com informações de Forbes