Empresas vêm recorrendo a especialistas em estudos do futuro — conhecidos como futuristas — para antecipar mudanças econômicas, tecnológicas e sociais e orientar decisões estratégicas. A atuação desses profissionais combina pesquisa, análise de dados e metodologias científicas para identificar sinais no presente e elaborar cenários que ajudam organizações públicas e privadas a se preparar para diferentes possibilidades.

Wellington Porto, diretor executivo e fundador do Brasil Futures Forum — o primeiro fórum dedicado aos estudos do futuro do Brasil e da América Latina —, diz que a atividade segue lógica comparável a outras disciplinas científicas: enquanto historiadores pesquisam o passado, futuristas estudam tendências e possíveis desdobramentos futuros. Porto atua na área há seis anos e cita a influência da pioneira Rosa Alegria.

Por que empresas contratam futuristas

O avanço da inteligência artificial, as tensões geopolíticas e os efeitos das mudanças climáticas aumentaram a incerteza nos negócios, segundo especialistas. Nesse cenário, decisões baseadas apenas no curto prazo têm eficácia reduzida, e organizações buscam entender que mudanças estão em curso e quais impactos elas podem gerar em cinco, 10 ou 20 anos.

Essa demanda impulsionou práticas internas como o design de futuros e a criação de laboratórios de prototipagem de futuros, onde empresas simulam cenários antes de lançar produtos, tecnologias ou modelos de negócio. A proposta é testar hipóteses, identificar riscos e avaliar impactos de decisões ao longo do tempo.

Porto cita exemplos globais de empresas que estruturaram laboratórios focados em cenários de longo prazo, incluindo PwC, H&M e Chanel. No caso da Chanel, a empresa desenvolve iniciativas práticas voltadas à inovação e sustentabilidade, entre as quais está a NEVOLD, entidade independente dedicada a esses temas.

Métodos e finalidade

O trabalho dos futuristas envolve a análise simultânea de transformações em diferentes esferas da sociedade. Metodologias como o modelo Steeple são usadas para avaliar fatores sociais, tecnológicos, econômicos, ecológicos, políticos, legais e éticos, garantindo que processos de inovação considerem não só oportunidades de mercado, mas também impactos sociais.

Um princípio central dos estudos de futuro é a rejeição de um único desfecho inevitável. Segundo Porto, existem múltiplos futuros possíveis em disputa, e o objetivo é projetar cenários plausíveis, não prever um único resultado. Um exemplo citado é o bloqueio do Estreito de Ormuz: por sua sensibilidade geopolítica e importância na logística global de petróleo, esse tipo de situação já é objeto de estudos que indicam consequências imediatas em preços de passagens aéreas e alimentos e efeitos na cadeia logística que depende de combustíveis como o diesel.

O futurismo no Brasil

Nos últimos cinco anos, o campo dos estudos do futuro no Brasil deixou de ser composto por iniciativas pontuais e se transformou em um ecossistema mais organizado, com universidades, consultorias, grupos de pesquisa e movimentos dedicados ao tema. A presença brasileira nas cátedras de estudos do futuro da Unesco cresceu, representada pelo Museu do Amanhã e pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

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O Brasil Futures Forum, marcado para 22 a 24 de agosto no Rio de Janeiro, reúne essa agenda regional. No país também surgiram associações profissionais, como a Associação Brasileira de Futuristas Profissionais (ABF Pro) e a Associação Latina de Futuristas (ALAF), voltadas, respectivamente, ao exercício profissional e ao design e criatividade.

Entre as aplicações do futurismo no Brasil está o estudo de tecnologias e saberes ancestrais como conhecimentos vivos úteis para projetar o futuro. Em âmbito corporativo e de políticas, o campo integra temas como Missão 1,5°C e o Acordo de Paris, nos quais iniciativas visam contribuir para metas como emissões líquidas zero já em 2040.

Formação e atuação

O futurismo reúne saberes de economia, sociologia, inovação, ciência de dados, comportamento, tecnologia e planejamento estratégico. Profissionais com formação em design, economia, marketing, tecnologia, sociologia, antropologia e inovação aproximam-se da área por cursos e especializações, utilizando ferramentas de prospectiva estratégica, inteligência antecipatória e design de futuros para construir cenários, avaliar riscos e apoiar decisões.

Na prática, a atividade exige visão ampla da sociedade, domínio de metodologias analíticas e atualização constante sobre transformações tecnológicas, econômicas, políticas, sociais e ambientais. O objetivo é fornecer às organizações instrumentos para se prepararem ante possibilidades diversas, atuando em um território entre utopias e distopias — às vezes descrito como o campo das protopias, onde se testam protótipos plausíveis entre o ideal e o catastrófico.

O trabalho dos futuristas, portanto, não visa adivinhar o que acontecerá, mas projetar alternativas e mapear riscos e impactos para orientar decisões estratégicas.

Com informações de Fastcompanybrasil