O anúncio do programa Desenrola 2.0 e a autorização de uso de até 20% do saldo do FGTS para pagamento de dívidas colocaram em risco as expectativas do setor imobiliário para 2026, apesar da recente queda da Selic para 14,50% nas duas últimas reuniões do Comitê de Política Monetária (Copom).

Na manhã desta segunda-feira (04), o governo federal lançou a segunda edição do Desenrola, que visa renegociar dívidas de alto custo no orçamento das famílias, como cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal. Entre as medidas está a autorização para que até 20% do saldo do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço seja transferido diretamente da Caixa Econômica Federal ao credor para abater débitos.

O programa tem como público-alvo trabalhadores de baixa e média renda, com salários de até cinco salários mínimos — justamente a faixa beneficiada por linhas de financiamento imobiliário subsidiadas e pelo uso do FGTS na compra de imóvel.

Impacto estimado pelo setor

A Associação Brasileira de Incorporadoras (ABRAINC) demonstrou preocupação com a medida. Em simulação, a entidade projetou saques do FGTS entre R$ 4,5 bilhões (Estimativa Base) e R$ 8,2 bilhões (Limite Máximo Global). Segundo a Associação, essa retirada poderia resultar na não criação de 59 mil a 107 mil empregos (diretos e indiretos) no sistema habitacional e restringir o acesso à moradia para entre 25 mil e 46 mil famílias.

Ainda de acordo com a ABRAINC, o Estado poderia deixar de arrecadar entre R$ 1,4 bilhão e R$ 2,4 bilhões oriundos do setor e o PIB teria uma redução potencial de até R$ 10,7 bilhões por perda de investimento. Em nota, a entidade ressaltou que o FGTS tem alto efeito multiplicador: para cada R$ 1 bilhão investido em habitação, seriam gerados 13 mil empregos e R$ 300 milhões em impostos, segundo suas contas.

Luiz França, presidente da ABRAINC, afirmou que liberar recursos do FGTS para quitar juros rotativos é um paliativo que não resolve a solvência futura do trabalhador e transforma poupança de longo prazo em pagamento imediato de dívidas que podem reaparecer.

A Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC) também alertou que a medida pode afetar a execução do programa Minha Casa, Minha Vida, e aumentar as incertezas para o setor diante de juros ainda elevados, elevação dos custos de obras provocada pela crise do petróleo, impactos da reforma tributária e debate sobre redução da jornada de trabalho.

Empresas listadas em bolsa mais expostas a programas habitacionais foram contatadas pelo InfoMoney; MRV, Cury, Direcional e Tenda recusaram comentar, enquanto Plano & Plano e Cyrela não responderam até a publicação.

Imagem: Divulgação

No mercado acionário, papéis de Cyrela, MRV e Cury figuraram entre as maiores quedas do Ibovespa na sessão desta segunda, com recuos de 4,17%, 2,89% e 2,53% por volta das 15h; Direcional caiu 1,32% e Plano & Plano subiu 3% em correção. Desde 17 de abril, o Índice Imobiliário da Bolsa recuou 12,41%.

Papel do FGTS na habitação

O FGTS é a segunda maior fonte de financiamento do setor imobiliário. Em 2025, o fundo respondeu por R$ 138 bilhões dos R$ 324 bilhões em novos financiamentos, cerca de 43% do total, segundo a Abecip. No estoque, o FGTS soma R$ 702 bilhões de uma carteira de R$ 6,23 trilhões, equivalendo a 27% — atrás apenas da poupança (SBPE), com 29%.

O orçamento total do FGTS é de R$ 160,5 bilhões, dos quais R$ 144,5 bilhões (quase 90%) estão destinados à habitação em 2026; aproximadamente R$ 13 bilhões desse montante são subsídios para viabilizar a compra por famílias de baixa renda.

Programas que permitiram retiradas do FGTS não são novidade: houve o saque de contas inativas no governo Temer e o saque-aniversário, iniciado na pandemia e ainda em vigor. Nos últimos meses de 2025, sinais positivos, como novo modelo de crédito para famílias com renda acima de R$ 12 mil e aumento dos limites do Minha Casa, Minha Vida, vinham animando o setor — uma expectativa reforçada pelos cortes na Selic, inclusive o segundo corte do ano registrado na última quarta-feira (27).

Apesar do otimismo do setor baseado na queda dos juros e na demanda por moradia, a inclusão do FGTS no Desenrola 2.0 surpreendeu negativamente entidades como a ABRAINC, que não esperavam nova retirada de recursos do fundo considerado pilar do crédito imobiliário para famílias de menor renda.

Com informações de Infomoney