12 de março (Reuters) — Líderes de empresas de software passaram a responder publicamente às preocupações de investidores de que ferramentas de inteligência artificial capazes de automatizar tarefas humanas poderiam tornar obsoletos produtos tradicionais do setor. Mike Sicilia, executivo da Oracle, foi o mais recente a rebater essa hipótese, afirmando que a IA não representa o fim do modelo SaaS.

Sicilia declarou em teleconferência com analistas que, embora novas empresas estejam desenvolvendo rapidamente softwares com IA, a ameaça ocorreria apenas se as próprias empresas de software não adotassem essas tecnologias — algo que, segundo ele, já está acontecendo de forma acelerada.

O temor dos investidores decorreu, em parte, do lançamento de plugins pela startup Anthropic para seu assistente digital Claude Cowork, capaz de automatizar funções como organização de informações de clientes e orientação em processos empresariais. Essas novidades contribuíram para uma queda de quase US$ 1 trilhão no valor das ações de empresas de software no mês passado, levando CEOs a aproveitar teleconferências de resultados para reagir às apreensões do mercado.

A Oracle previu que o crescimento relacionado à IA deve impulsionar sua receita por vários trimestres, anúncio que levou suas ações a subir 10% na quarta-feira. A empresa destaca possuir extensos bancos de dados corporativos em áreas como finanças, cadeia de suprimentos e recursos humanos — ativos que, segundo analistas, são difíceis de replicar por soluções baseadas apenas em IA.

Rebecca Wettemann, da consultoria Valoir, disse que a oferta da Oracle inclui sistemas em nuvem mais econômicos e um banco de dados compatível com as principais nuvens, uma combinação que fornece aos clientes opções relevantes à medida que o ecossistema de IA avança.

Outros executivos também minimizaram o risco. Marc Benioff, da Salesforce, disse a analistas que a empresa resistirá a um eventual “apocalipse do SaaS” e destacou que a companhia se posicionou como plataforma empresarial capaz de criar e gerenciar agentes de IA valendo-se de volumosos dados proprietários sobre clientes e processos comerciais. Jensen Huang, da Nvidia, igualmente descartou a ideia de que a IA substituiria o software tradicional.

Analistas consultados pela Reuters observaram que dados exclusivos e proprietários constituem a defesa mais robusta contra a concorrência baseada em IA. James St. Aubin, da Ocean Park Asset Management, afirmou que essa base de informações é a vantagem competitiva mais sólida.

Imagem: Divulgação

No caso da Salesforce, seus sistemas permanecem profundamente integrados às operações corporativas, com uma plataforma que administra mais de 50 trilhões de registros em tempo real. A companhia também tem buscado se reposicionar com iniciativas de agentes de IA, como o serviço Agentforce, ainda em estágio inicial.

Alguns especialistas lembraram, no entanto, que nem todos os conjuntos de dados oferecem a mesma proteção. A Workday, por exemplo, concentra-se em informações de recursos humanos e folha de pagamento, áreas com formatos mais padronizados e, portanto, potencialmente mais vulneráveis à replicação por IA. A empresa trouxe de volta o fundador Aneel Bhusri como CEO para orientar a companhia na chamada “era da IA”, mas suas ações caíram mais de um terço no ano, atingindo mínima de mais de cinco anos após uma previsão de vendas fraca.

Bhusri defendeu que os sistemas da Workday incorporam duas décadas de processos empresariais difíceis de serem reproduzidos por IA, que hoje opera de forma probabilística e ainda não garante resultados absolutamente repetíveis.

Apesar das incertezas, alguns analistas acreditam que o setor pode se mostrar mais resiliente do que os valuations recentes sugerem, e que ganhos de produtividade trazidos pela IA têm potencial para estimular contratações e crescimento nas empresas de software.

Com informações de Infomoney