LONDRES — Dois meses após o início da guerra no Irã, com ação atribuída aos Estados Unidos, os efeitos econômicos já se fazem sentir em várias regiões do planeta: fábricas têxteis na Índia e em Bangladesh fecharam, voos foram cancelados na Irlanda, Polônia e Alemanha, e alguns países asiáticos enfrentam racionamento de energia, segundo reportagem do New York Times republicada pelo InfoMoney.
Enquanto avisos de recessão acendem-se na Ásia e na Europa, a economia americana segue relativamente resiliente — com crescimento estável e desemprego baixo — o que levou o Royal Bank of Canada a afirmar que “ainda é difícil apostar contra a economia dos Estados Unidos”.
Os Emirados Árabes Unidos, que possuem fundos soberanos estimados em mais de US$ 2 trilhões, solicitaram assistência financeira aos Estados Unidos depois de sofrerem danos em campos de gás por mísseis e sofrerem interrupções no tráfego pelo Estreito de Ormuz.
Em aproximadamente oito semanas, as perspectivas para a economia global mudaram de forma abrangente. O choque de preços nos combustíveis e fertilizantes pressiona os custos de produção e eleva o risco de aumento de preços de alimentos ao longo do ano. O Fundo Monetário Internacional advertiu que a insegurança alimentar é uma “ameaça significativa” na África, e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento alertou que milhões na região Ásia-Pacífico correm o risco de voltar à pobreza em decorrência do conflito.
Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que os países mais pobres sofrerão mais, pois consumidores não conseguem absorver o aumento dos preços de energia e governantes dispõem de menos recursos para compensar a população. Além disso, a escassez de crédito tende a encarecer empréstimos necessários a esses países.
Raghuram Rajan, economista da Universidade de Chicago e apontado no texto como ex-presidente do Banco Central da Índia, disse que a escassez de combustíveis já começa a atingir setores diversos e que, à medida que isso avança, mais indústrias podem fechar. Usinas siderúrgicas na Índia e montadoras no Japão reduziram produção, enquanto fábricas de brinquedos na China também enfrentam problemas após perda de pedidos e demissões.
No norte da Índia, em Firozabad, trabalhadores relataram queda na oferta de serviços: Muhammad Waseem disse que “por causa da guerra, o trabalho diminuiu”. Um empregador ofereceu 500 rúpias (R$ 26) por um serviço de construção, valor bem abaixo da rotina habitual. Outro trabalhador, Aas Muhammad, de 25 anos, caminhou cerca de 8 quilômetros ao mercado e avaliou aceitar os 500 rúpias, embora os preços básicos tenham subido — um quilo de gás de cozinha, que custava 80 rúpias (R$ 4), passou a valer 200 (R$ 11).
Milhões de trabalhadores indianos empregados nos Emirados Árabes Unidos e na Arábia Saudita, que enviam remessas significativas aos países de origem, permanecem presos no exterior sem atividade. A interrupção no tráfego pelo Estreito de Ormuz também reduziu o fluxo de outras commodities, como hélio, alumínio e nafta, afetando a produção de itens que vão de preservativos a microchips.
Nos Estados Unidos, apesar do impacto menor em comparação ao resto do mundo, consumidores sentem o aumento do preço da gasolina — mais de US$ 1 por galão (3,78 litros) desde o começo do conflito — o que pesa sobretudo sobre famílias de menor renda. Bancos em Wall Street revisaram para baixo suas projeções de crescimento e elevaram expectativas de inflação, fazendo com que praticamente se abandone a expectativa de cortes de juros antes do outono americano.
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Especialistas entrevistados afirmam que, para haver preocupação séria com recessão nos EUA, seria necessário um aumento muito maior no preço do petróleo, possivelmente na faixa de US$ 150 por barril. Entretanto, a combinação de menor crescimento e inflação mais alta acende alertas em outras regiões, onde requisitos energéticos e cadeias produtivas mais intensivas em energia já foram mais atingidos.
A alta no custo do combustível para aviação levou companhias a reduzir operações: a Lufthansa cancelou 20 mil voos previstos para este verão no Hemisfério Norte, e as 20 maiores companhias aéreas do mundo cortaram ao menos parte de seus voos, segundo dados da Freightos. Menos voos pressionam o turismo e as receitas de hotéis e restaurantes.
Analistas apontam vantagens relativas para os EUA: o país produz mais petróleo e gás do que consome, tem uma economia orientada a serviços e entrou no conflito com fundamentos macroeconômicos mais sólidos do que muitos pares, o que ajuda a amortecer o choque. Jason Bordoff, diretor fundador do Centro de Política Energética Global da Universidade Columbia, afirmou que os efeitos físicos da escassez aparecem primeiro na Ásia e depois na Europa, concluindo que os norte-americanos “não estão sentindo a mesma dor que o resto do mundo”.
Especialistas alertam, contudo, que o impacto sobre a economia dos Estados Unidos pode aumentar caso o conflito se estenda, elevando custos de transporte e pressionando os preços de outros bens. Ben Harris, economista da Brookings Institution e ex-economista-chefe do Departamento do Tesouro americano, afirmou que, se o choque persistir, a situação poderá ser bem diferente em seis meses.
c.2026 The New York Times Company
Com informações de Infomoney

Gudyê GR6 é editor-chefe e especialista em tendências musicais e entretenimento na GR6, a maior produtora de funk do Brasil. Com anos de experiência no mercado fonográfico, Gudyê lidera a equipe de conteúdo trazendo as últimas notícias sobre música, cultura urbana. Autor do Post: Gudyê GR6