O choque de preços provocado pela escalada do conflito entre Estados Unidos, Israel e Irã deixou a inflação de 2026 praticamente definida e já contamina as projeções para 2027, segundo analistas. Em quatro semanas, a mediana do mercado para o IPCA avançou de 4,1% para 4,71%, conforme o boletim Focus do Banco Central.
Especialistas apontam que a alta internacional do petróleo desorganizou a cadeia de custos no Brasil e gerou repasses que vão de combustíveis ao frete, e daí para preços ao consumidor. “Preço no Brasil sobe de elevador e desce de escada”, afirma Fábio Romão, sócio da consultoria Logos Economia, para explicar a dificuldade de reverter os aumentos já incorporados.
Diesel: efeito difuso e imediato
A valorização do barril se traduziu em reajustes importantes na gasolina e, sobretudo, no diesel, que teve aumento de dois dígitos no IPCA de março. Embora a gasolina pese mais no índice, é o diesel que atua de forma mais capilar, porque ele eleva os custos de transporte por caminhão e impacta preços em vários setores. A Logos projeta alta de 5,4% no grupo Transportes para 2026.
Passagens aéreas e atraso nos impactos
O querosene de aviação acumulou alta de 55% no início de abril, e esse aumento deve aparecer no IPCA com defasagem, já que o IBGE simula compras de passagens com dois meses de antecedência. A passagem aérea acumulou alta de 46% no primeiro trimestre, contrariando a sazonalidade histórica — a mediana do período entre 2016 e 2025 registra queda de 22,8%. A Logos estima que as tarifas aéreas terminarão 2026 com alta de 45%.
Do barril ao prato: pressões sobre alimentos
A alimentação no domicílio acelerou de 0,26% em fevereiro para 1,94% em março. Parte dessa pressão decorre do aumento do frete; outra parte tem horizonte mais longo: a elevação nos preços de fertilizantes decorrente do petróleo e de rupturas nas cadeias de insumos tende a chegar à lavoura somente nos meses seguintes. Romão alerta que “o fertilizante pode acabar fazendo preço no segundo semestre e em 2027”.
A Logos revisou sua projeção para alimentação no domicílio em 2026 de 3% para 5,4%. Mesmo assim, esse número permanece abaixo da mediana dos últimos 15 anos (7,8%), mas representa um salto frente aos 1,4% de 2025. A série recente mostra variações anuais de alimentos: 2020 (+18,2%), 2021 (+8,2%), 2022 (+13,2%), 2023 (-0,5%), 2024 (+8,2%), 2025 (+1,4%) e projeção 2026 (+5,4%), segundo IBGE e Logos.
Nos níveis acumulados, os reajustes desta década podem somar até 67% na alimentação ao fim de 2026, segundo a análise citada.
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Renda comprometida e cenário para política monetária
O impacto sobre as famílias agrava-se porque o endividamento anda alto: 80,4% das famílias estavam endividadas em março de 2026, ante 77,1% um ano antes, segundo a CNC; quase 30% tinham contas em atraso. O novo ministro da Fazenda, Dario Durigan, informou que o comprometimento da renda com dívidas chegou a 49,7% em janeiro.
Na avaliação de Romão, é pouco provável que as projeções retornem ao patamar pré-guerra — é mais provável que as expectativas deixem de subir do que comecem a cair. A mediana para a inflação de 2027 no boletim Focus passou de 3,8% para 3,91%; a Logos revisou sua previsão de 3,8% para 4,0%.
Do ponto de vista da política monetária, a Logos projeta um corte de 0,25 ponto percentual na Selic no fim de abril, em ritmo cauteloso. O governo, por sua vez, coordenou cortes de tributos e subsídios a combustíveis que somam mais de R$ 30 bilhões, segundo Durigan, para tentar mitigar os impactos.
Há sinais de alívio no preço do petróleo: a reabertura do Estreito de Hormuz pelo Irã derrubou o Brent para menos de US$ 90, o menor nível em mais de um mês. Mas a queda internacional do petróleo não elimina automaticamente os reajustes já repassados na economia doméstica. Assim, a inflação de 2026 pode não ser alta em termos históricos, mas corrói renda, se acumula no nível de preços e tende a manter efeitos em cadeia no próximo ano.
Com informações de Investnews

Gudyê GR6 é editor-chefe e especialista em tendências musicais e entretenimento na GR6, a maior produtora de funk do Brasil. Com anos de experiência no mercado fonográfico, Gudyê lidera a equipe de conteúdo trazendo as últimas notícias sobre música, cultura urbana. Autor do Post: Gudyê GR6