A Organização Meteorológica Mundial (OMM) indica que o fenômeno El Niño — caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Pacífico e por alterações no padrão de chuvas — pode afetar o Brasil no segundo semestre de 2026 e se estender por parte de 2027. Especialistas ouvidos pelo Borainvestir apontam que os impactos abrangem desde o agronegócio até as contas de energia, com efeitos repercutindo na inflação e no poder de compra das famílias.

Por que o mercado ainda não precificou o risco

Analistas dizem que os riscos do El Niño ainda não foram totalmente incorporados às projeções de mercado. Alex André, economista e analista de Corporate Access da MZ Group, afirma que a intensidade e a duração do fenômeno permanecem incertas, e que agentes econômicos tendem a ajustar projeções apenas quando surgem sinais concretos sobre produção agrícola, preços de alimentos e energia. Para Beny Fard, economista e sócio da B8 Partners, há risco de subestimação dos efeitos, especialmente se o El Niño se confirmar com forte intensidade. Catarina Monteiro e André Galhardo, da Análise Econômica, alertam que, se as projeções se confirmarem, o fenômeno pode provocar perturbações inflacionárias ainda não refletidas no mercado.

Impacto no agronegócio

O setor agrícola deve ser o primeiro a sentir as mudanças no regime de chuvas: previsão de precipitação acima do normal no Sul e risco de seca no Norte, Nordeste e em partes do Centro-Oeste e Sudeste. Alex André destaca que o principal canal de transmissão é o setor agropecuário, com efeitos sobre produtividade, qualidade das safras e logística de escoamento. Entre as culturas mais vulneráveis estão soja, milho e café; Beny Fard aponta que o milho tende a ser prejudicado, a soja terá impactos mistos e tanto café quanto algodão sofrem com calor, déficit hídrico ou excesso de chuva em fases críticas. Cana-de-açúcar também aparece como sensível às variações climáticas, e os especialistas lembram que efeitos serão heterogêneos — algumas regiões podem ter resultados positivos enquanto outras registram perdas.

Efeito no bolso do consumidor

Redução da oferta agrícola tende a elevar preços de alimentos, que por sua vez afetam produtos derivados como carnes, leite e ovos devido ao encarecimento da ração. Alex André alerta para pressão inflacionária que reduz o poder de compra, especialmente nas famílias de menor renda. Monteiro e Galhardo ressaltam risco adicional por secas, queimadas e inundações, que podem agravar o repasse de custos ao consumidor. A Análise Econômica projeta que, com pico do El Niño no final de 2026 e início de 2027, reflexos nos preços de alimentos devem ficar mais evidentes no começo de 2027.

Risco para as contas de energia

O setor elétrico é o segundo canal de impacto por causa da forte dependência de geração hidrelétrica. Sudeste e Centro-Oeste concentram cerca de 70% da capacidade instalada. Os reservatórios fecharam abril em torno de 71% da capacidade — nível considerado confortável, mas inferior ao verificado em anos anteriores, segundo Monteiro e Galhardo. Menos chuva nos reservatórios pode levar ao acionamento de usinas térmicas mais caras e a mecanismos tarifários mais onerosos, como bandeiras tarifárias mais altas. Gustavo Assis, CEO da Asset Bank, explica que isso pressionaria contas de luz de famílias e empresas e acrescentaria pressão à inflação. Dados citados mostram que meses de El Niño “muito forte” apresentaram peso médio das bandeiras tarifárias 62,1% maior do que em meses sem o fenômeno, representando em média 7,6% da tarifa-base residencial; atualmente a Aneel já aplica a bandeira amarela em tarifas.

El Niño pode elevar preços de alimentos e energia no Brasil a partir do segundo semestre de 2026

Imagem: Divulgação

Consequências para a economia

Os efeitos sobre a economia brasileira devem se acumular ao longo de meses. Alex André estima que o segundo semestre de 2026 seja o período mais provável para surgirem impactos econômicos mais nítidos, com reflexos que podem perdurar em 2027. O Banco Central projeta crescimento do PIB de 1,6% para 2026; economistas da Análise Econômica observam que essa previsão não considera um El Niño de forte intensidade e que os efeitos maiores podem recair sobre 2027, já que parte da safra de 2026 foi colhida ou está em desenvolvimento. Beny Fard chama a atenção para o risco de manutenção de juros reais elevados por mais tempo em caso de El Niño intenso, citando que, segundo um ranking da Lev Intelligence, o Brasil tem o maior juro real do mundo, de 9,67%. Gustavo Assis recomenda monitoramento contínuo e estratégias de mitigação por parte de empresas, produtores e investidores, sem alarmismo, devido à incerteza sobre a intensidade e duração do fenômeno.

O acompanhamento dos indicadores climáticos e das projeções de safra será determinante para avaliar a magnitude dos efeitos sobre preços, energia e a economia nos próximos meses.

Com informações de Borainvestir.b3